Antes tarde do que mais tarde, é preciso voltar às origens
Milhares de conexões em múltiplas existências virtuais. Impossível interagir com as pessoas que contactam por cada vez mais canais. Relacionamentos afetivos cada vez mais complexos. Falta de tempo. Amizades que não resistem às diferenças. Muita companhia para eventos virtuais. Dificuldade de conciliar companhias para lazer de corpo presente. Olho no olho cada vez mais raro. O mimimi está nas gerações mais novas. Chupeta para acalmar e dar conforto aos mais velhos. Reborn. Do amor. Pobre goods. Saudade de quando vocês eram barro. Ninguém toca nessa maionese.
“Bem-vindo ao novo mundo que vai se desintegrar no próximo segundo.”
O verso acima é da música Novo mundo, do mais recente álbum do Arnaldo Antunes, de quem sou fã declarada e que pude assistir — sozinha — no gargarejo do Cine Jóia há algumas semanas, na capital que é o avesso do avesso do avesso do avesso, quando começou a nascer essa nius.
Só que não.
Ela vem sendo construída mais precisamente há um mês, ao longo do qual aconteceram 17 momentos de troca com cerca de 300 pessoas de 7 segmentos diferentes, do início da vida profissional ao conselho de organizações, olho no olho, lente na lente.
Em todos esses momentos, um fio condutor: o esgarçamento das nossas relações. Não vou dizer que chegamos ao limite, porque a capacidade de produzir — e naturalizar — absurdos é exclusividade humana, e o que outrora se apresentava como distopia está aí, no dia a dia, para provar que ainda está longe de ter se esgotado.
Por que isso importa
“Antes só do que mal acompanhado” tem limites para o bem-estar e a saúde. “Chat, qual a minha bênção?”, pode nos colocar na trend, mas consome recursos planetários de forma absurda e evidencia uma rotina de mal-estares.

A cultura da performance, eficiência e eficácia, e a falta de crítica com que lidamos com ela e que, há décadas, nos afasta do tempo natural das coisas que não são máquinas, como nós, pessoas, está inviabilizando a prática de pilares fundamentais como amizade, parceria, companheirismo, respeito, admiração, vínculos reais e sólidos.
Protagonismo e intencionalidade para mudar padrões
Desde que escrevi Allboarding® (não sabe do que eu estou falando? Depois, lê aqui, então!), venho propondo começar por um giro pelo Ciclo de Intencionalidade, passar pelo Mapa de Influência e Impacto e compreender que percepção é resultado de ação, coerência, consistência e sentido. Não precisamos mais falar: passou da hora de fazer.
Trata-se de uma reflexão crítica sobre como vimos atuando e que tipo de impactos vêm sendo impressos nas pessoas e em nós. A proposta visa olhar para a relação com o ambiente de trabalho, mas, como nunca preguei separação entre as vidas, desde o tempo em que isso significava não ter inteligência emocional (sim, ele existiu e ainda existe nos muitos mundos que convivem juntos por aí), claramente se aplica a outras situações.
Tomar posse dos campos de autonomia
Não importa seu momento de vida ou de carreira, existe um campo, por menor que seja, de autonomia para a sua atuação, seus impactos e as influências que você causa. Então, a partir de agora é meu convite para que a gente assuma e exerça a responsabilidade individual por isso, como parte de um pacto coletivo pela nossa saúde.
Vamos intencionar as relações que queremos estabelecer no trabalho, priorizando as pessoas que somos, e parar de reagir e agir como recursos humanos?
Aqui vai uma proposta de exercício para essa mentalidade de influência e impacto (preferencialmente positivo, mas longe do tóxico, combinado?):
- Ciclo de Intencionalidade
Ele consiste em passarmos pelo QUÊ fazemos — COMO fazemos — QUANDO fazemos — POR QUE fazemos — QUEM impactamos — QUAIS resultados obtemos — e o QUANTO eles estão ou não alinhados aos nossos projetos de vida, não necessariamente nessa ordem, num ciclo de autocrítica que amadurece a maneira como nos relacionamos. Por aqui, não é preciso começar pelo porquê, e sim por onde fizer mais sentido para o seu momento de vida.
Ao exercitá-lo, vemos como somos diferentes! Um exemplo: percorra todos os passos e questione como o seu momento de vida traz uma perspectiva diferente da que você tinha há tempos.
- Agir com o coração, usando a cabeça, com a reputação como norte
Como você gostaria que as pessoas falassem sobre como é trabalhar com você?
Escreva uma frase que oriente sua reputação com atributos da sua identidade, que trazem valor para as suas relações de trabalho. São eles que deveriam orientar o seu posicionamento.
- Mapa de Influência e Impacto
Como olhar para a maneira como a nossa identidade e as nossas emoções estão presentes nas interações do dia a dia e interferem na coerência como projetamos a nossa imagem e fortalecemos (ou não) a nossa reputação?
O Mapa ajuda a clarear as relações por públicos, desafiando a lógica de extrair valor das conexões, para substituí-las pelo compartilhamento de valor, a partir da qual vamos ver como nossa identidade interfere pró ou contra esse contexto.
A sugestão é que você crie uma tabela como a abaixo:
- Definir cada um dos públicos com os quais você se relaciona: pode parecer óbvio, mas na hora de listar virão dúvidas sobre quais critérios utilizar. Pense no que faz mais sentido para você: áreas com as quais mais se relaciona? Pessoas? O importante é ser uma visão pessoal, e não do negócio, combinado?
- Proposição de valor para cada público: avalie o que você oferece e recebe de diferentes pessoas/áreas em suas interações.
- SWOT pessoal focada na identidade: reconheça suas forças e fraquezas, e como elas se manifestam dependendo do contexto e do público. Você verá que nem sempre o que achamos que é uma força impacta positivamente os públicos, a depender da proposição de valor na qual precisamos centrar o relacionamento…
- Tudo comunica. E pode ser ruído: Albert Mehrabian já disse, no livro “Comunicação não-verbal”, que as palavras representam apenas uma pequena parte da comunicação (7%). O tom de voz (38%) e a comunicação não verbal (55%) são a maioria. O que seu corpo, suas atitudes, sua presença, a cara que grita, comunicam no dia a dia?
Cultivando conexões com respeito e responsabilidade
A cultura de uma organização é produto da soma das atitudes individuais das pessoas que trabalham para ela. O estresse e o assédio, por exemplo, não estão em nenhum dos códigos éticos, mas são escolhas ou atitudes de pessoas, que impactam a qualidade das relações.
A conexão que importa para você pode ter múltiplos significados, seja o acolhimento, o aprendizado mútuo, a inspiração que alivia as dificuldades da vida, ou a durabilidade de um relacionamento. A meta não é mudar, nem você, nem a outra pessoa, mas trabalhar no espaço que existe entre quem somos, quem não conseguimos ser e quem podemos nos tornar.
Quebrar o ciclo de mal-estar pode acontecer no nosso micro-espaço de autonomia.
Afinal, ainda que “a caixa de pandora escancarada das redes liberou o ódio anônimo, o medo é a arma mais usada e a pior derrota é o desânimo”, o afeto segue sendo revolucionário e as conexões humanas, um lembrete sobre o que realmente deveria importar nesse multiverso que habitamos.
📌Curadoria da Ceci
Links rápidos (alguns nem tanto) para você ler, ouvir e assistir
🎧 Arnaldo Antunes – Novo Mundo: Não tem como não indicar ele, que embalou não só o início desta nius, como milhares de outras reflexões que há muito tempo acontecem nessa cabeça que vos fala.
📖Pluriverso: um dicionário do pós-desenvolvimento (Ashisk Kotari et al): Ainda no tema da nius, quem me acompanha há mais tempo sabe que quando me refiro à projeto de vida, evoco o conceito dos Yshiro, povo originário da América do Sul, que o compreende como aquilo que uma pessoa entende como boa vida. Quem curte ir mais fundo pode encontrar este e outros verbetes no livro.
☁️ Pra levar com você
O quanto das suas relações hoje é intencional e o quanto é apenas reação ao que acontece?
Pare, respire, olhe para os vínculos que mais importam e se pergunte:
O que estou construindo como legado — e o que eu estou apenas deixando acontecer sem nem me dar conta?

