Cecília Seabra

Empreendedorismos, empreendedores e um olhar pela #comunicaçãonossadecadadia

25 de outubro de 2023
empreendedorismo e comunicação

Ao longo dos meus 25 anos de carreira, que já já se completam, tive a oportunidade de acompanhar o surgimento de muitos tipos de negócios, dos mais complexos aos mais singulares, muitos deles possíveis de serem classificados como bom empreendedorismo.

Aproveitando o fato de que estou passando por uma experiência singular nessa área — estou vendo nascer, dentro de casa, uma nova empresa em um segmento que, para mim, é inédito —, aproveitei o embalo para reunir alguns pontos que considero importantes, e que vi refletidos no apoio que venho podendo prestar à minha pessoa empreendedora, para compartilhar nessa nius, com quem está pensando em se aventurar no mundo dos CEOs de si próprios.

Memes a parte, empreender — de verdade — é algo complexo e, na grande maioria das vezes bastante solitário, angustiante e gerador de muita ansiedade.

As contribuições que você verá de agora em diante se baseiam na minha atuação em comunicação, marketing e sustentabilidade, e consideram, também, minha experiência com desenvolvimento e mentoria de pessoas em diferentes estágios profissionais e de liderança, com o objetivo de se somarem aos muitos outros conteúdos que podem servir de alento à turma que está começando nessa estrada. Não têm pretensão de serem técnicas, mas sim orientativas e acolhedoras, certo?

1) Empreeendedorismos e pessoas empreendedoras…

Não dá para começar a falar em empreendedorismo e pessoas empreendedoras sem conceituar. Sim, porque não queremos chamar precarização do trabalho de empreender, combinado?

Quem me acompanha há um tempinho sabe que eu gosto de começar pelo começo, na imensa maioria das vezes. Hoje, não será diferente. Vamos começar pelos conceitos, para seguirmos a partir deles.

Nas leituras para fundamentar esse artigo, resolvi focar no trabalho de Nicoline Pinheiro Fernandes, Lívia Castro D’Avila, Ana Paula Capuano da Cruz e Errol Fernando Zepka Pereira Junior, todos pesquisadores daUniversidade Federal do Rio Grande – FURG, que nos brindaram com um artigo muito relevante publicado na Revista Brasileira de Gestão e Inovação.

Antes de trazer o que constataram, vou explicar por que escolhi o trabalho deles: é uma revisão sistemática sobre empreendedorismo e inovação em periódicos brasileiros avaliados com qualis A1, A2, B1, B2 e B3 em maio de 2019. Qualis, Qualis-Periódicos ou Qualis/CAPES é o sistema brasileiro de avaliação de publicações, mantido pela CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, que relaciona e classifica os veículos utilizados para a divulgação da produção intelectual dos programas de pós-graduação do tipo stricto sensu, ou seja, aqueles que têm mestrado e doutorado, quanto à circulação e qualidade, por área de avaliação. Então, eles fizeram um levantamento muito relevante sobre o que temos até hoje de produção de conhecimento sobre o tema.

É fundamental conhecermos os conceitos para pararmos de uma vez por todas de contribuir para a deturpação do sentido do que é empreender, enquanto aceitamos um mercado de trabalho cada vez mais desigual e precário.

E se você ainda tem dúvidas sobre o quanto, vamos lá comparar, cada um de nós, o que vemos e ouvimos sobre empreendedores ao quadro maravilhoso que eles trazem no artigo, que reproduzo abaixo:

Reprodução de publicação original, disponível em

Então, depois de trazer os conceitos, eles revisaram 199 artigos, excluindo 94 e considerando para a revisão sistemática 105 publicações, nas quais identificaram três categorias de pessoa empreendedora:

  1. aquela pessoa que cria/abre uma nova empresa, sendo proprietária ou principal responsável por ela;
  2. a que identifica uma oportunidade, associada ao desenvolvimento econômico — a pessoa empreendedora como agente de mudanças;
  3. e alguém com características comportamentais distintas.

Ao fim, consolidaram esta imagem:

Reprodução de publicação original, disponível em

Mas não foi sempre assim… vejam só:

"O termo empreendedor teve origem no século XII na França e era associada a “aquele que incentivava brigas” (Vérin, 1982 como citado em Filion, 1999, p. 18). Já no século XVI, o termo referia-se àquela pessoa que assumia a responsabilidade e conduzia uma ação militar. Somente no final do século XVII e início do século XVIII que a expressão foi associada à pessoa que criava e dirigia empreendimentos ou projetos (Filion, 1999). Observa-se que para cada século o empreendedor é descrito de maneira diferente."

Neste linkestá o artigo completo, para quem se interessar por ir além no conhecimento da teoria por trás do dia a dia.

2) Muita atenção em quem estará ao seu lado

Alguns negócios surgem solitários. Já outros, pela própria natureza, ou porque precisam de um aporte financeiro que virá de mais de uma pessoa (ou qualquer outra razão), requerem sociedade — e este é um ponto que pode ser fonte de muita preocupação.

Olho para ver se a pessoa que está ao seu lado compreende o que é uma sociedade, o que é o negócio, tem ideia do que será o trabalho, tem abertura para se capacitar e estar realmente ocupando o papel esperado no seu desenho de sociedade…

Muita gente se disponibiliza a ser sócia em um negócio por motivos podem passar ao largo do profissional e este problema aparecerá cedo ou tarde se não for bem resolvido desde o princípio, ou se não estiver muito claro e alinhado entre as partes. Quantas vezes no afã de ver de pé um projeto vamos buscando vieses de confirmação, na mesma medida em que nos negamos um olhar mais crítico sobre o quão sólidas são as fundações que segurarão o negócio de pé?

Acontece nas melhores empresas.

Então, não hesite em conversar e alinhar todos os entendimentos necessários antes de dar a largada.

3) Quanto melhor e mais assertivo o contrato, menor a quantidade de problemas

Se o seu negócio requer uma sociedade, uma redação clara e que seja capaz de cobrir todos os eventuais pontos que podem ser geradores de dúvidas, atritos, ou representar mudanças ao modelo sob o qual, inicialmente, foi pensado, é fundamental.

Se não, outros pontos devem ser considerados, como o capital social mais adequado para constar na abertura da empresa, que pode apoiar o seu desenvolvimento, ou impedi-la de ter acesso a determinadas questões cruciais — isso aconteceu quando eu abri minha PJ e não observei que algumas oportunidades requeriam um capital social mais elevado do que eu coloquei quando constituí a pessoa jurídica CECI, para dar um exemplo pessoal.

Por isso, é muito importante contar com o apoio de bons profissionais — essencialmente escritórios de contabilidade e advogados — de preferência com experiência no apoio a empresas que atuam no mesmo segmento de mercado que você está querendo desenvolver, com atividades semelhantes e com atendimento feito por pessoas acessíveis e disponíveis para estar ao seu lado.

No caso que estou envolvida atualmente — mais um exemplo pessoal — o apoio de um escritório que já possui clientes no mesmo ramo e é liderado por uma pessoa de perfil excepcional no entendimento das necessidades, que se comporta verdadeiramente como uma parceira da empresa que está surgindo, tem sido um diferencial no tipo e na qualidade de orientações que recebemos. Ajudou, inclusive, a prever cláusulas contratuais que foram determinantes para que uma sociedade desfeita antes mesmo de começar não pusesse todos os planos abaixo.

4) Autoconhecimento e organização

Quando o que está em jogo é o seu futuro profissional e a capacidade de gerir os boletos e, por que não?, planejar a realização daqueles sonhos e vontades — realidade de todos nós que precisamos trabalhar para pagar conta —, é claro que a ansiedade senta na mesa em todas as refeições, como anda lado a lado durante todo o dia e noite. Para deixá-la minimamente controlada, autoconhecimento e organização são fundamentais.

Isto porque é tanta, mas tanta coisa para fazer e pensar e providenciar e viabilizar e…., e…, e… que a sensação de que não dará certo nunca com a euforia de estar no caminho brincam de dança das cadeiras e quem sofre é você, pessoa que está empreendendo. Aqui, vale prestar atenção no seu perfil e cuidar para não deixar ativar os gatilhos — autoconhecimento.

Coisas simples, como listar todas as atividades e priorizá-las, indicando aquelas que dependem exclusivamente de você, daquelas que têm pré-requisito, definir papeis e responsabilidades, dentre outros detalhamentos que te ajudem a ter uma visão do todo, serão muito úteis para fazer você entender que, sim, está tudo sob controle e caminhando, que você sabe o que está fazendo, e/ou identificar onde precisa de mais atenção.

Especialmente nos momentos em que os trâmites burocráticos se impõem, e você se vir sem poder avançar porque depende da resposta de um, de outro, do documento, da certidão…, a organização será uma tábua de salvação, e te ajudará a equilibrar os esforços e determinar qual o tamanho da ansiedade que fará sentido deixar entrar.

5) Invista em ferramentas essenciais para uma boa gestão

Informações, dados e controles são essenciais para que você não perca tempo com o que não é preciso. Invista nas ferramentas essenciais para o funcionamento do seu negócio. Pesquise versões gratuitas para ver se atendem ao que precisa e, em caso negativo, avalie o custo VS benefício das versões pagas, levando em consideração o tempo que você irá perder sem elas, e que não estará focado no core business, ou seja, no coração do negócio, aquele lugar onde seu olhar será essencial.

Lembre-se de que não é só ele, o core, que faz a empresa, mas sim todo um conjunto de processos e rotinas que para algumas pessoas são extremamente maçantes — e desconhecidas! —, mas que, se não nascem organizadas, criam uma dependência extrema da pessoa fundadora ou quem estará a cargo delas, atrasando o crescimento, que, muitas vezes, é totalmente dependente da forma como você conseguirá gerir o negócio e as pessoas.

6) Crie desde o princípio as bases para a cultura da sua empresa

Ainda que, hoje, seja você contigo e no máximo, uma pessoa sócia, qual o propósito, quais os valores, a identidade dessa nova empresa, por que ela existe, o que guia esse negócio que está nascendo e que, em algum tempo, poderá abrigar mais pessoas para fazê-lo crescer?

Além de ajudar na tomada de decisões, uma cultura que deixa suas bases claras desde o princípio pode ser um grande diferencial na hora de conquistar seus primeiros clientes, pois será mais um elo potencial para conexão, relacionamentos e diálogo.

E se a sua empresa já nasce com mais pessoas, uma cultura organizacional é fundamental para não perder talentos e, mais tarde, atrair aquelas pessoas que farão a diferença na forma de operar.

É muito mais fácil atrair as pessoas ideais para o negócio quando temos definido o como fazemos as coisas por aqui — uma boa forma de sintetizar o que é a cultura de uma empresa.

7) Não comece seu negócio em bases ultrapassadas

Por que começar um negócio em bases ultrapassadas se já temos muitos modelos que unem o lucro a impactos positivos?

Ao contrário do que pode parecer, não é muito difícil criar um modelo de negócio de impacto. Inicialmente, vale atenção a algumas premissas, como a gestão humanizada, responsabilidade em todas as áreas — dentro e fora da empresa, o que inclui considerar a consequência das suas escolhas, ou da sua omissão em relação às opções existentes.

Quem serão os seus parceiros e intermediários de marketing, quem são seus fornecedores…? Escolha pessoas comprometidas com causas que sua empresa também se compromete e acredita (afinal, já terá uma cultura), com os mesmos valores, pense em gerar empregos para pessoas que têm menos oportunidades na sociedade, privilegiar pequenos empresários e produtores, pessoas empreendedoras como você.

Uma estratégia de gestão que visa impacto positivo se preocupa e se compromete além do lucro.

Sua empresa já pode nascer dessa forma, que será, sem dúvida, também um diferencial importante.

8) Fortaleça sua estratégia e sua cultura investindo desde o princípio em agregar olhares de marketing e comunicação aos processos

A começar pelo tipo e qualidade de informações que você incluirá na sua análise de mercado, até mesmo o quanto não precisará adaptar as coisas lá na frente, a integração é uma bênção.

Para além da gestão em si, você pode não ter funcionários logo de início, mas terá parceiros, intermediários de marketing, pessoas que serão cruciais para que o negócio exista e opere. Por isso, quanto mais assertiva for a sua comunicação com todos eles, melhor para a empresa e para as pessoas. Ela fortalecerá sua cultura e ajudará a evidenciar processos fundamentais para fazer com que a informação flua dentro das especificidades do seu negócio.

Aproveite o tempo de criação e os prazos burocráticos para se capacitar e criar os processos do seu negócio, gerindo a informação e o conhecimento sobre ele desde o momento zero. A ideia é que, uma vez que chegue a hora de contratar pessoas, você tenha tudo organizadíssimo, para que elas possam atuar sem depender totalmente de você, exercendo autonomia e encontrando espaço para contribuir para melhorias.

Crie sua marca e seu brandingde forma coerente com o negócio e com a sua estratégia de gestão. Posicione-a, valendo-se de canais de comunicação para potencializar seu acesso aos públicos que importam para o crescimento sustentável da empresa.

Ao contrário do que pode parecer, não é necessário um grande investimento, mas sim um olhar estratégico e integrado para agir no que é prioridade.

9) Aproveite o tempo antes do início da operação para deixar sua vida organizada

Como está sua casa, da sua vida cotidiana? Pode parecer besteira esse tópico, mas aproveitar o tempo de espera pelos trâmites burocráticos para deixar tudo em ordem, além de organizar a vida, vai aliviar a ansiedade.

Veja pelo lado bom: quando a empresa começar a operar, você vai precisar se dedicar bastante e o pouco tempo, juntamente com um ambiente privado bagunçado, podem elevar seu nível de estresse.

Sabe aquela papelada antiga que não precisa mais ser guardada mas você nunca se animou a encarar? Arregace as mangas e organize! Doe o que não é necessário acumular e irá fazer a diferença para outras pessoas, abra espaço.

A regra do jogo é deixar sua atenção, energia e tempo voltados para o que importa, e quanto mais você puder se dedicar à nova empresa e às demais coisas que são importantes na sua vida (amigos, família, parceria etc), mais prazer terá e mais resistência aos inúmeros problemas que vão surgir, além do que é uma delícia estar em um ambiente organizado, não acha?

10) Busque o máximo de informações que puder, mas não deixe de confiar — e muito! — em você

É natural nos sentirmos inseguras, principalmente as empreendedoras — levanta a mão que mulher não tem dentro de si uma impostora…

Capacitar-se é um caminho excelente e fundamental, porque nos instrumenta de conhecimento para embasar nossas decisões e aumentar o nível de segurança. Assim como benchmarkingse conversas com seu networking.

No entanto, não devemos negligenciar nosso faro, feeling, sexto sentido, intuição… chamem como quiserem. Nosso conhecimento empírico e as experiências também têm (muito) valor e não devem se sentir coadjuvantes no processo.

Todo conhecimento importa e você vai precisar muito deles. Todos. Bem como de uma rede de apoio que ajudará a ser acolhida para renovar as forças e a confiança em você e no seu projeto.

No mais, pense na relação de influência que todos exercemos com as pessoas que nos cercam.

Representatividade, ocupação de espaços e (ainda) mais visibilidade para um empreendedorismo real, possível e positivo podem nos fazer avançar rumo a mais políticas públicas de fomento e menos precarização.

***

Você, que chegou até aqui, me diz o que achou desses pontos, se acrescentaria mais alguns ou mais visões a eles mesmos. Vamos conversar.

Fica com meu abraço, e sigamos conectados!

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Até a próxima, Ceci 😉

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