Cecília Seabra

Caos e desistência

26 de abril de 2024

Começando a semana que tem o Dia Internacional do Trabalho no meio para refletir sobre o quanto somos pessoas preparadas para o caos que é lidar com o nosso tempo — e estarmos preparadas para o que não temos ideia de que vai acontecer — a partir de algumas referências.

 

Isso importa porque…

… especialmente depois da pandemia, vimos o quanto estamos sujeitas a trancos dos quais fugimos em nossas preparações para lidar e gerir riscos.

Ficou bastante evidente que ainda temos, no geral, uma cultura corporativa muito focada em manuais e treinamentos de crises conhecidas e prováveis, mas que pouco investem para se preparar para cenários mais amplos e que consideram a gama de incertezas com as quais precisamos e precisaremos lidar.

A primeira referência é o macaco do caos da Netflix, ferramenta que testa o quanto o sistema está preparado para lidar com ataques para que suas pessoas, principalmente engenheiros de software, identifiquem e tratem rapidamente dos problemas.

O objetivo? Aumentar a resiliência do negócio.

E a desistência com isso?

Desistir é um ato de coragem, segundo Anne Duke.

E ela deve vir de forma estruturada, exaurindo os testes para gerar certeza e confiança de que o caminho está errado e deve ser repensado. Esse exercício virá do quanto testamos a resiliência dos modelos atuais — alguns deles já fadados ao fracasso, certo?

 

Começando a unir os pontos (porque é só o começo mesmo e cada pessoa que ler vai desenvolver essa conexão com suas referências e necessidades)

Para evoluirmos nos modelos de gestão — e aqui me refiro a todas as instâncias hierárquicas e funções — é preciso mudarmos a mentalidade sobre como trabalhamos.

Alguns aspectos relevantes:

  • Incerteza, sua linda: nunca teremos todas as informações necessárias para tomar decisões. Então, a incerteza é par de trabalho e deve ser considerada.
  • Força no processo: resultados são muito influenciados por fatores fora do nosso controle, o que torna cada vez mais relevante a qualidade do processo de tomada de decisão.
  • Probabilidades: a gente não consegue prever o futuro, mas pode estimar a probabilidade de diferentes resultados para decisões mais informadas e racionais.
  • O lugar dos erros: refletir sobre as decisões, identificar erros e mudar o processo de tomada de decisão a partir deles é fundamental.
  • Vieses: excesso de confiança, viés de confirmação e viés de disponibilidade estão conosco do café da manhã à janta. Desconsiderá-los é aumentar a chance de erro, vamos combinar que sem necessidade, certo?
  • Múltiplas perspectivas: somos sempre muito eficientes em buscar confirmação e ignorar o que as contradizem. Perspectivas diversas dão trabalho, mas ajudam a tomar decisões melhores.

 

Para ir mais longe

Se olhamos para o papel dos conselhos e da alta gestão, por onde circulo atualmente, estamos falando da urgência em rever o modelo de governança para transição de um olhar interno para outro que posicione a empresa como parte da sociedade.

Significa sermos capazes de enxergar o que está acontecendo e estruturar a governança de fora para dentro, integrando atividades e áreas para que a sustentabilidade e o ESG estejam, de fato, integrados à gestão, e não prioridade de uma área ou projeto.

São forças inegáveis para mudança de mentalidade, e não forçação de barra de quem atua na área e deseja ver cada vez mais empresas compreendendo seus papeis, compromissos e responsabilidades.

Esse movimento requer cada vez mais capacidade de arquitetura para capturar, tratar e comunicar uma quantidade enorme de informações e dados, o que coloca a tecnologia como um pilar fundamental para possibilitar a ação e resiliência ao negócio.

Independente de qual é a sua área de atuação, não é sobre necessariamente saber fazer, mas compreender as necessidades e saber geri-las como parte do repertório de recursos. Vale para cada uma de nós, profissionalmente, e para nortear agendas de desenvolvimento de pessoas.

É urgente atualizar as culturas organizacionais para que o entendimento de risco e tomada de decisão esteja presente de fato, e não siga sendo tratado de forma isolada, focando no que mais gostamos ou sabemos, em vez daquilo que é preciso.

 

Quer ir mais fundo?

Alguns links para ampliar a leitura, que são, também, referências para esse conteúdo.

  • Especial sobre risco da McKinsey: https://www.mckinsey.com/featured-insights/mcKinsey-explainers/what-is-business-risk?cid=other-eml-onp-mip-mck&hlkid=a761cb0ff94a424499421f501854ee17&hctky=11517417&hdpid=d74efdb1-e75a-4c17-9ede-690ebb4c2046
  • Chaos Monkey, da Netflix: https://netflix.github.io/chaosmonkey/
  • Edição do The Shift, sobre desistência: https://mailchi.mp/theshift.info/desistir-parte-do-jogo?e=8a1a899e74

 

Boa semana!

último artigo

Propósito para quem?

Cada vez mais empresas buscam posicionamentos purpose-first sem priorizar as dimensões tecnológicas, políticas, sociais e culturais necessárias para uma transição sustentável — e coerente.   Era uma vez um povo chamado Yshiro, originário da região onde hoje é o Paraguai, para o qual projeto de vida é o significado do

Ler+

penúltimo artigo

Caos e desistência

Testar a resiliência dos modelos de negócio e transformar culturas corporativas para que contemplem a visão de risco como parte das atividades diárias é urgente.

Ler+

Inscreva-se para receber A Comunicação Nossa de Cada Dia sempre que sair uma nova edição.

Vamos conversar?