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Saúde mental é saúde e ponto

ago 2021 | Carreira, Comportamento, Comunicação, Democracia, Imagem, Política, Tendência, Trabalho

Até quando vamos separar as saúdes, se o funcionamento de uma pessoa é ecossistêmico? Por isto, fechando a semana em que a saúde mental vem sendo discutida em várias frentes com a lente ampliada pelos acontecimentos olímpicos, aproveito para falar sobre vulnerabilidade e comunicação. Afinal, saúde mental é saúde e ponto, e todos nós temos a ver com isto.

Estamos doentes além da Covid19.

Em setembro de 2020, o Estadão publicou que as buscar por termos ligados a transtornos mentais havia aumentado 98% nas buscas do Google. Neste ano, mais matérias, com abordagens distintas, desde líderes que sofrem de ansiedade e depressão, a técnicas, como mindfullness que passaram a ser aplicadas pelas empresas como parte das estratégias de gestão de pessoas.

Já o Meio&Mensagem trouxe na capa o tema. Dentre outros dados, a reportagem cita o estudo “One Year of Covid-19”, da Ipsos para o Fórum Econômico Mundial, que aponta que a saúde mental das pessoas piorou 53% desde o início da pandemia. Ainda, que o Brasil é o quinto colocado entre as populações que mais sentiram piora na saúde mental. E agora vamos ao título: até quando vamos separar saúdes?

Por que isso importa

Da mesma forma que eu escrevi aqui há um tempinho, de que enquanto as gerações disputam que é mais foda, todos perdemos, enquanto separamos saúde física e mental, o mesmo acontece. Saúde mental é saúde e ponto. Afirmo isto de cadeira de quem tem uma genética privilegiada na família, com muitos casos de transtornos, incluindo um irmão esquizofrênico.

Isso importa porque enquanto falamos em políticas de saúde e políticas de saúde mental, umas são priorizadas em detrimento de outras. Nossos “loucos” seguem ou depositados em instituições (alô, Foucault!), ou sem qualquer alternativa para um tratamento minimamente aceitável.

E essa realidade berra toda vez que olho nos olhos do meu irmão. Nesses momentos, vejo uma potência que vagueia por uma sociedade incapaz de aceitar que é humana, vulnerável, imperfeita e, principalmente, impotente diante de quase tudo o que não pode ser normalizado.

E é aí que mora a questão central que desejo discutir nesse texto, na necessidade de normalização.

De perto ninguém é normal

O dia a dia obriga a gente a fingir que está tudo bem. Isto porque ser vulnerável é lindo no discurso, mas tem um preço que, como todas as demais coisas no nosso país, é acessível para poucos. Assim, seguimos numa luta desigual entre quem pode se dar ao luxo de sentir e quem não pode.

Na última terça-feira, 27 de julho, conversamos muito sobre isto no Carreira & Comunicação da Sala de RH, comigo, Franciele Dall’Agnol e Delaíse Pimentel. Neste dia, a Delaíse falou uma frase parecida com sentir é o que nos torna humanos, que parece óbvia, mas é pura resistência.

Se não, vejamos.

Reparem no quanto de discursos e narrativas circulam com tendências e dicas disfarçadas de cuidado, mas que, no fundo, querem mesmo é que a gente aguente o tranco a qualquer custo. Dessa forma, o abuso de palavras como resiliência e antifragilidade causa pânico (pelo menos em mim).

Saúde mental é saúde e ponto

Enfim, chegamos à comunicação. E por quê? Porque quando compramos a narrativa de que tal coisa resolve tal problema, subliminarmente estamos dizendo: se você fizer tal coisa e não conseguir resolver o seu problema, então, o problema está em você. Significa dizer que estamos trabalhando para reforçar subjetividades e fazer com que tudo siga como está, com ares de gente bonice e humanização. Só que não.

Repito insistentemente o quanto nós, profissionais da comunicação, temos um papel político fundamental. Enquanto algumas carreiras discutem o que é e o que não é política, em que locais podemos ou não discutir política, nós sabemos que tudo é política, e que nossa atuação profissional igualmente é. Essa afirmação é científica e vem da minha pesquisa que deu origem à dissertação de mestrado defendida há pouco mais de um mês.

Assim, minhas amigas, meus amigos e amigues, sigamos críticos. Não compremos discursos sem antes avaliar em que medida estão a serviço da nossa saúde integral. De verdade. Porque enquanto olharmos para um ou outro, perdemos nós, que temos que lidar com o dia a dia, boletos, dores e delícias de sermos quem somos.

 

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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