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Resiliência, antifragilidade, eu, você e nós todes

jan 2021 | Adaptação, Comportamento, Comunicação, Democracia, Educação, Mentoria, Oportunidade, Sem categoria, Tendência, Trabalho

Esse post tem uma história. E está aqui porque adoraria que tivesse também uma consequência. Por esse motivo, o convite é para uma discussão urgente sobre os discursos de resiliência, antifragilidade, eu, você e nós todes. Não só falarmos sobre, mas irmos um pouquinho além da reprodução, olhando também para as consequências.

Antes, porém, a história do post. Ela começa há dez anos, 11 de janeiro de 2011, quando o Vale do Cuiabá, onde moro, em Petrópolis, Região Serrana do Rio de Janeiro, sofreu o que chegou a ser classificado como maior catástrofe climática do país.

De lá pra cá, fora sirenes que não sei se ainda funcionam porque daqui não ouvimos, alertas da Defesa Civil por SMS (e quem não tem celular que se atente ao céu) e a sinalização de um ponto de encontro para caso de tragédia, nada mudou. Os escombros são visíveis, há casas parcialmente demolidas, outras com DC (Defesa Civil, indicando interdição) pixado nas paredes e muitos terrenos vazios que antes abrigavam mais seres vivos do que o onipresente capim.

Da catástrofe à resiliência

definição de resiliência, segundo o Houaiss

                         Resiliência, verbete segundo o dicionário Houaiss

 

imagem de provérbio popular "pau de goiabeira enverga, mas não quebra"   Provérbio popular

Partindo da definição do dicionário ou do provérbio popular, seria errado chamar a comunidade que seguiu vivendo no Vale de resiliente? Guarde a resposta ou as reflexões para a gente continuar avançando.

Da resiliência à antifragilidade

2020, pandemia, pessoas morrendo, 14 milhões sem trabalho, descaso, negacionismo, violência do Estado, desigualdades ampliadas e tudo mais que só persiste. Eu não sei vocês, mas a minha vida foi inundada pela antifragilidade. Tanto que cheguei a me sentir uma “loser” por me deixar afetar tanto, ainda que na minha vidinha tudo estivesse caminhando bem em comparação ao contexto.

Por isso, o título Resiliência, antifragilidade, eu, você e nós todes está aqui para a gente se lembrar de que, assim como o post, as definições e os conceitos têm uma história.

Por isso, não basta compreender o que significam, mas como e por que significam, e as consequências de os adotarmos e propagarmos indiscriminadamente. E digo isto em referência às essências, não ressignificações, que muitas vezes distorcem o sentido original e capturam a nossa atenção para consequências, e não para a origem.

Resiliência, antifragilidade, eu, você e nós todes

Coincidentemente hoje, também, foi a última aula de Novas teorias da mídia, ministrada brilhantemente pelo Prof. Leonardo de Marchi no PPGCOM UERJ com base no livro Big Tech: ascenção dos dados e a morte da política, de Evgeny Morozov, editado em 2018 pela Ubu Editora. Eis que me deparo com o seguinte trecho:

Em seu best-seller de 2012, intitulado Antifrágil: coisas que se beneficiam com o caos […] tudo gira em torno da resiliência, de assumir riscos e, como diz Taleb, de “sentar à mesa do jogo”. Como afirmam Julian Reid e Brad Evans, no livro Resilient Life: The Art of Living Dangerously [Vida resiliente: a arte de viver perigosamente], esse crescente culto da resiliência mascara um reconhecimento tácito de que nenhum projeto coletivo poderia sequer aspirar a controlar as profusas ameaças à existência humana‚ a única expectativa ao nosso alcance é a de reunirmos condições para enfrentar cada uma dessas ameaças individualmente (MOROZOV, 2018, p. 97).

Assim sendo, e partindo da história desse post e das brevíssimas referências, voltemos à pergunta: seria errado chamar toda a comunidade que seguiu vivendo no Vale, na região atingida em 2011, de resiliente?

E acrescentemos outra: resiliente seria a melhor palavra para utilizarmos, dado o conceito que carrega, ou o foco neste caso deveria ser nas raízes e origens do problema, como ocupação desordenada do solo, descaso e a omissão do poder público, desmatamento e as mudanças nos fluxos de chuvas e outras causas de interesse público e comum?

Conhecer, criticar, contextualizar

O marco histórico da minha região serve de exemplo para o trabalho. Conhecer o conceito de resisiência e antifragilidade, de onde vêm, a quem e ao quê servem, com se alimentam, como se reproduzem… é importante para entender por que são utilizados, como são e em que medida interferem nas nossas vidas.

A partir daí, conversar com os nossos limites para “nos beneficiarmos com o caos” e “vivermos perigosamente”. E, a partir deles, quais as consequências. Porque elas existem. E querendo a gente ou não, atingem eu, você e nós todes. A pandemia, novamente ela, está aí para nos mostrar o quanto decisões individuais impactam no coletivo, do micro ao macro, do burnout à porta da casa para dentro, ou à morte de mais de 200 mil pessoas.

provérbio popular "vaso ruim não quebra"

                                       Provérbio popular

No final das contas — e como quase tudo na vida — pode ser bom, ruim, ou uma grande besteira. Cabe refletir e saber se e como passa ou não adiante: se o objetivo é não quebrar, tanto faz ser vaso ruim ou pau de goiabeira. Mas por que não quebrar? O que significa não quebrar? E qual a necessidade de ser você, pessoa, a carregar essa característica? Em carregando, quais os impactos para você e para todes nós?

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

2 Comentários

  1. Laize

    Que reflexão! Abre uma nova porta para pensarmos sobre resiliência. Ou seria resignação? Ou ainda surrender!?
    Não! Acho que foi descaso , omissão e ausência de políticas públicas.
    Os moradores são severinos, como escreveu João Cabral de Melo Neto.

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    • Cecília Seabra

      Que bom que gostou, Laize! Eu realmente acredito que precisamos pensar bem nas palavras e na forma como as utilizamos e significamos.

      Responder

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