Blog da Ceci

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Quero saber por que e como resolve

jul 2019 | Comunicação, Conteúdo, Educação, Jornalismo, Mídias, Pesquisa

Demorei para chegar no Digital News Report 2019. O ano está puxado! Mestrado acadêmico que me levou a ler 36 livros e um tijolo de uns oito centímetros de altura de artigos (fora os que consegui encarar a limitação e ler na tela), aulas na graduação, pós-graduação, consultorias, apoio a amigos e alunos que querem se (re)colocar no mercado de trabalho, ou aqueles que estão no mercado e precisam de uma pessoa exatamente assim-assado-e-Ci-me-indica-alguém-por-favor, revisão de currículos, contatos etc. etc. etc. e tome etcétera… Minha mãe insiste para eu escrever um livro com umas crônicas que eu acho que precisam amadurecer horrores. Uma amiga-diva-amada-da-vida resolveu fazer coro. Perdi a conta de quantas malas arrumei e desarrumei entre Rio e a Montanha, entre Sul-Sudeste. E ainda tem outra metade. E vai ser mais bombado ainda (aff!). É, minha gente, fazer o que se gosta é uma delícia mas dá um trabalho danaaaaaado… De vez em quanto cansa e dá vontade de jogar tudo pro alto e produzir orgânicos. Mas ainda não será agora que eu vou parar de dizer “você não é o público”, “as pessoas não são burras”… Guenta, que ainda tem energia para seguir nas cecilhadas! Mas bora voltar ao tema do texto: Digital News Report 2019, ou minha atual irritação com a imprensa e o fazer notícia (noves fora algumas coisas que seguem dando um orgulho do diplomitcho #mídiaindependenteteamotodososdiasezilhõesdenewslettersquereceboevibro).

OK, que estou com senso crítico beeem chatinho pelas leituras, questionamentos e caraminholas de quem se mete a fazer ciência aos 40. Mas o relatório me trouxe um alento e um alerta. Alento porque confirmou que não estou maluca (ainda — para alegria de uns, tristeza de outros). Alerta porque é grave a crise. E nós, que estamos na ativa, especialmente os que como eu dedicam-se às novas gerações de focas, precisamos ser vigilantes, precisamos lutar, precisamos ter força para falar 1.000 vezes. E outras 1.000. E mais tantas quantas forem necessárias. E agir.

Tá, relatório…

Produzido pelo Reuters Institute for the Study of Journalism , com entrevista a mais de 75 mil consumidores de notícias (esse termo vai dar pano — não confundir com passar pano — para outro texto) em 38 países, apontou que em todos eles o nível médio de confiança nas notícias caiu. No Brasil, a confiança caiu 11 pontos percentuais no último ano, chegando a 48%. Por aqui, o percentual de pessoas que evita notícias é de 32%, sendo a justificativa mais frequente o impacto das mesmas sobre o humor e a incapacidade em relação a mudanças no cenário. O relatório saiu enquanto eu estava relendo Simulacro e poder: uma análise social da mídiada necessária Marilena Chauí (Editora Perseu Abramo, 2006). Reproduzo, abaixo, citação do primeiro capítulo, intitulado Destruição da esfera da opinião pública:

Houve uma rede de televisão brasileira que conseguiu, com ousadia e exclusividade, uma entrevista com o presidente da Líbia, logo após o bombardeio de sua casa pela aviação norteamericana, em 1986.

“O que o senhor sentiu quando percebeu o bombardeio? O que o senhor sentiu quando viu sua família ameaçada?”

A longa entrevista se reduziu aos sentimentos paternos  conjugais de Kadafi […]

Em suma, o acontecimento político foi transformado em uma tragédia doméstica e da vida pessoal de uma das mais importantes lideranças do mundo árabe (pág. 6, grifos meus).

Na mesma semana, havia assistido o telejornal matinal do Rio enquanto brigava com o sono dos meninos nos 5ºC do inverno da Montanha para irmos para a escola. A matéria era sobre a falta de medicamentos em uma das UPAs da cidade, com entrevista a um cidadão que precisava repor seu remédio, sob risco de morte. As perguntas? Como ele se sentia e variações. Terminei de assistir a matéria sem saber por que faltava remédio na UPA e o que ia-poderia-deveria ser feito para que não voltasse a ocorrer. Só soube que o homem estava triste e que, por nota, a secretaria de saúde disse que estava fazendo licitação para repor o estoque (pelo prazo que o entrevistado disse que precisava do remédio, tive certeza de que não daria tempo).

E aí veio o Report. Na sequência, o Nieman Lab, laboratório mantido pela Nieman Foundation, da universidade Harvard, fez algumas matérias em cima dos resultados, uma delas perguntando aos leitores suas experiências sobre “evitar notícias”. Dentre os comentários, alguns contribuem para ilustrar o alerta: abordagem negativa do noticiário, sem discutir a raiz dos problemas ou cobrar das instituições uma forma de serem solucionados (ex. 1), interesses comerciais (ex. 2), e a tendência à customização da experiência on-line (ex. 3) — “as grandes notícias costumam me encontrar” (vide FIGURA 1).

FONTE: NIEMAN LAB, disponível em https://www.niemanlab.org/2019/06/why-do-some-people-avoid-news-because-they-dont-trust-us-or-because-they-dont-think-we-add-value-to-their-lives, acesso em 24/6/2019.

Ainda segundo o relatório do Reuters Digital Institute (2019), a perda de importância da imprensa, enquanto porta-voz da verdade dos fatos, vem acompanhada de outros pontos de atenção. Pessoas com atitudes consideradas populistas são mais propensas a ter a TV como sua principal fonte de notícias, mais propensas a confiar no Facebook para notícias on-line e menos propensas a confiar na mídia geral, e os aplicativos de mensagens crescem como rede primária para discussão e compartilhamento de notícias. No Brasil, o WhatsApp já é utilizado para esse fim por 53% dos entrevistados.

Cabe voltar ao exemplo 4 da Figura 1: “é impossível saber o que é a verdade”. No Brasil, 85% dos entrevistados concordam estarem preocupados sobre o que é ou não real na Internet. Apesar disso, “quase seis de cada dez usuários de WhatsApp (58%) fazem parte de grupos com pessoas que não conhecem, comparado a uma em cada dez no Reino Unido (12%)”, o que é alarmante se olharmos para o fenômeno da disseminação das fake news e seu impacto potencial nessa sociedade altamente midiatizada de meldels, que nosotros brazilians bem conhecemos.

Não sou só eu que quero saber por que e como resolve.

Isso é bom.

E já está pautando minha tradução de ementa para a disciplina do semestre que começa daqui a pouco.

E acendeu o alerta e as oportunidades que temos de mudança. Vamos?

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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