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Quando virei jornalista

fev 2019 | Jornalismo, Oportunidade, Trabalho

O ano eu não me lembro muito bem, mas era 2000 e pouquinho e eu trabalhava na Monte Castelo Ideias atendendo como assessora de imprensa uma seguradora, entre váááááários outros clientes. Foquinha, 20 e pouquíssimos anos, começando a aprender na pancada numa época em que estagiário, recém formado e profissional eram, igualmente, primeiros que chegam, últimos que comem e responsáveis por tudo que some. Sem distinção.

Seguradoras divulgam balanços 2x ao ano e, além de bons resultados, esperam destaque na imprensa, naquela época alguma coluna da mídia impressa era a glória. E lá vai Cecizinha fazer o que o cliente quer:

Alô, Boechat? Aqui é Cecília Seabra, da Monte Castelo Ideias. Tudo bem? Te mandei uma nota sobre a XPTO, você chegou a ver?

Oi, Cecília Seabra, da Monte Castelo Ideias, eu vi sim, e inclusive quero aproveitar o telefonema para te pedir para transmitir meus parabéns ao pessoal lá da XPTO pelo resultado, que tá muito bom.

Ah, legal… você vai dar a nota, certo?

Não. Porque isso que você me mandou não é notícia, Cecília. Empresa privada é feita para dar lucro e resultado, então isso aqui é obrigação, Cecília. Se você quiser transformar isso aqui numa notícia e me dizer de onde veio esse resultado, o quanto significa que é bom em relação ao resto do mercado, explicar isso aqui e dizer por que importa… se me mandar uma notícia de repente eu até publico, ok? Tchau, tchau.

Obviamente as palavras não foram exatamente essas, mas não vão muito longe.

Dez segundos de silêncio depois, lê, relê, lê novamente a tal da nota. Realmente, aquilo ali não era notícia nem pro site institucional, Cecília!

Naquele dia nasceu uma jornalista.

E uma professora.

E nasceu uma pessoa que dá mais trabalho.

Porque nunca mais consegui fazer o que o cliente queria, mas sim passei a ajudá-lo a fazer o que precisava. Porque passei a questionar, passei a querer entender o porquê dos quês que chegavam à minha mão, porque passei a dizer que determinadas coisas não eram importantes, que quem me pedia não era o público.

Mais de duas décadas depois, estava eu na comunicação da Universidade Veiga de Almeida e ele foi palestrar para os alunos do campus Barra. Não pude ir. Mas mandei um e-mail, relembrando essa passagem. Ele, claro, não se lembrava de nada, mas me deu uma resposta doce, bem humorada e um pouco irônica, bem no estilo Boechat, e eu fiquei feliz de ter agradecido pela pancada certeira na cabeça.

Há pouco ele não chegou em casa para almoçar. Depois de Brumadinho, seis mortos pós temporal, Ninho do Urubu, 13 mortos em Santa Teresa, zilhões de tragédias que não chegam aos nossos olhos dia a dia, lama, fogo e caos exemplificando o momento de treva pelo qual passamos enquanto sociedade, vai embora uma voz que ainda tinha liberdade para falar, certo e errado, em defesa da notícia, da liberdade de imprensa, das pessoas.

Desânimo total.

Amanhã, quando entrar em sala para dar aula, espero me inspirar nele, afastar o desânimo e retomar a indignação com o que não deveria ser, mas é, na esperança de que esses novos focas possam seguir na missão de fazer do amanhã um pouquinho melhor do que o hoje.

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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