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Novas mídias, velhos problemas?

ago 2018 | Comunicação, Inovação, Tendência

Na edição de julho da revista Crescer foi publicado resultado de pesquisa realizada com 2.044 pais e mães de crianças de 0 a 8 anos, que constatou que 47% já possuem algum influenciador digital e 38% têm seus próprios equipamentos eletrônicos, por meio dos quais consomem conteúdo. Nosso público de amanhã (para aqueles que já não estão inseridos em marcas, produtos e realidades focadas nos pequenos), em plataformas e mídias disponíveis já, nas quais ainda assistimos a reprodução de conteúdos criados para uma realidade anterior.

Há 20 anos atuo em comunicação corporativa e no desenvolvimento de pessoas nessa área e, nos últimos dois anos e meio, convivo mais direta e profundamente com a formação de alunos na educação superior. Além de jornalistas e publicitários, que estarão diretamente implicados em fazer chegar mensagens a esse cliente de amanhã, vejo diariamente a dificuldade de todos – professores e alunos – em observar as necessidades da comunicação sob o ponto de vista de para quem se destina a mensagem, ou seja, o bom e velho receptor.

Após alguma observação e muita leitura, apliquei em uma turma de docentes, na disciplina Comunicação e Inovação, um exercício de reflexão: revisitamos alguns processos de comunicação e os pontos comuns entre eles. Resumindo bastante a discussão, foi observado que nenhum partia do receptor, ou seja, qual a necessidade de uma determinada pessoa, ou grupo de pessoas. A partir dessa constatação, como trabalhar melhor o por quê, o quê e como fazer chegar conteúdo relevante a ponto de despertar a atenção, a audiência e o tão importante engajamento que faz com que ganhemos vida longa na economia da atenção?

Que falta empatia na comunicação, a notícia é velha. Falta também questionamento e, triste, mas verdade, questionar os saberes para nos permitirmos adotar novos pontos de vista. Escutar mais, em vez de responder. Construir colaborativamente. Quem de nós que trabalhamos com e para marcas não está cansado de ser demandado para ações brifadas por pessoas que estão anos-luz dos públicos que precisam ver relevância no que será comunicado? Ou então para utilizarmos meios A, B ou C porque há que se estar em todos os canais, ainda que não haja consistência sobre a relevância daquela audiência para os objetivos a serem alcançados?

Temos o privilégio de atuarmos num momento de profundas transformações na lógica da comunicação, dos meios e do consumo de informação. Dispomos de big data como nunca para clarear caminhos e possibilidades (alô, alô turma de Humanas, que mata aula de estatística e acha que número é com quem escolheu Exatas!). Mas seguimos cometendo com muita frequência o velho erro de partir do que queremos comunicar, e não do que é a realidade do público que queremos atingir e o que é de interesse deles, para vermos como podemos entrar na sala e participar da conversa. Novos meios, velhos problemas, que precisamos assumir como realidade para participarmos da transformação não como passado, mas permanecendo como presente.

*Texto publicado em 14/08/2018 no Black Box

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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