Blog da Ceci

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Mulher, sempre mulher

mar 2021 | Adaptação, Comportamento, Identidade, Imagem, Oportunidade

Peguei emprestado os versos do poetinha na falta de criatividade para um título que melhor definisse esse artigo. Sim, é sobre ser mulher, sempre mulher, caminho que, pelo menos para mim, não foi nada fácil. Mas para contar essa história eu preciso voltar aos anos 80, Ceci criança, bem guriazinha. Porque essa Ceci percebeu cedo, cedo, o ônus do feminino e começou a odiar o que ela entendia por ser mulher.

Mais velha de quatro filhos, ouvia que não podia brincar porque usava calcinha quando todas as desculpas e chantagens de irmão (só se pegar água para mim, arrumar minhas coisas e tals) acabavam. Quando passei a usar shorts sem cueca, a desculpa era que o meu cabelo era enrolado. Cortei “joãozinho”. E fiquei assim anos e anos.

O guri Ceci andava de shorts sem camisa pelas ruas do Centro de Petrópolis, quando os pais não tinham medo de nos deixar sair à rua. Jogava bola no time sem camisa. Ia à praia e à piscina só de parte de baixo do biquíni. Ao longo de toda a infância, foram só duas bonecas e uma Peposa (lembram?): uma Susi, que ganhei junto com uma banheira de espuma. Ela andava toda heavy metal amarrada no carrinho de fricção e a banheira era um lava-jato. A Peposa ficava lá sem vestido, porque urso não usa roupa.

ursa peposa, dos anos 80

             Essa é a Peposa!!!

Mulher, sempre mulher

A fase 2 dessa história é a fase mais escura. Junto com a puberdade, veio a raiva por ser mulher e ver a liberdade do corpo ir embora junto com os peitos que começavam a crescer e com a menstruação, que veio perto dos 15 anos. Ambos os eventos me deixaram o dia todo chorando na cama, tipo: minha vida acabou, nunca mais vou poder fazer o que gosto como gosto!

Ao mesmo tempo, o machismo manifestado em violência doméstica em casa crescia. Começou a raiva das instituições às quais a mulher deve se curvar: sentar direito, ser sempre tranquila, sob pena de ser histérica, não falar palavrão, casar, ter filhos. Tudo isso para mim era uma revolta.

E a revolta era potencializada pelos hormônios, amores não-correspondidos — eu era quase 2 anos mais nova do que toda a turma da escola, era a brother, mas ninguém queria me namorar porque eu era a brother, e pirralha — palavrões em profusão (um amigo do meu pai me chamava de Dercy, em referência à Gonçalves) e ojeriza ao casamento e o que para mim eram suas consequências. Essa fase durou até uns 20 anos.

Dercy Gonçalves. CRÉDITO: ZULEIKA DE SOUZA/CB/D.A PRESS. Disponível em: https://blogs.correiobraziliense.com.br/proximocapitulo/dercy-goncalves-completa-10-anos/

Fecha cena, abre cena

Vida que segue, mulher, sempre mulher, mas numa fase 3 bastante mudada. Aparentemente, o guri tinha se refugiado no peito, masculinizando as relações, meu estar no trabalho. Uma vez questionei um chefe, após um caso de assédio de um cliente a uma das meninas da equipe, que nunca havia passado por situação semelhante com aquele homem.

Ouvi dele: claro, as pessoas têm medo de você.

Mulher, sempre mulher. E que bom!

Os últimos 20 anos foram de fazer as pazes com o ser mulher, e querer ser sempre mulher. Porque é impressionante a diferença que um pinto a menos e dois peitos a mais fazem na forma como você é percebido na sociedade. E olha que quem vos fala é uma mulher branca, não periférica…

Sim, ainda temos nossas falas interrompidas por homens que querem nos explicar coisas sobre as quais damos aula e produzimos conhecimento.

Sim, precisamos conviver com a sociedade compreendendo nosso corpo como bem público e temos medo de sermos estupradas.

Sim, temos que ouvir que temos sorte por termos companheiros que nos ajudam com as nossas responsabilidades.

Sim, somos chamadas de vacas, putas, galinhas e piranhas para as mesmas situações nas quais nossos equivalentes homens são garanhões potentes e exercem sua masculinidade, porque, afinal, os hormônios falam mais alto.

Sim, precisamos responder em conversas sobre trabalho se temos intenção de ter mais filhos e como fazemos quando algo acontece com eles, se temos algum apoio.

A lista é enorme.

Por outro lado…

Ser mulher é imenso. É tudo o que a gente sabe e, certamente, mais um pouco.

Por isso, nesse 8 de março, me apego a todas as Cecis que me deram forças para chegar desse jeito torto, mas meu, aqui, hoje, reúno as forças das minhas ancestrais conhecidas (minha família é uma selva; outro dia conto) — uma puta de cabaré, duas deserdadas, uma submissa e uma resiliente — e homenageio todas as mulheres que nos colocaram nesse 2021, com alguma voz. Homenageio todas as mulheres que estão lutando para se livrar de violências por todos os poros.

Convido para essa homenagem você, homens feminista, que compreende que a ampliação dos nossos direitos não significa diminuição de direitos a vocês. Podem nos dar flores (eu não curto, mas ok), bombons (prefiro um bom vinho), lanches (gosto rs), mas o que queremos mesmo é não precisar pedir pelo que é óbvio. Imagina viver um dia que seja com a sensação de que a igualdade de direitos, enfim, chegou ao cotidiano?

Parece distante. Já foi mais.

Sigamos! Com força, afeto e um beijo para todas, todos e todes.

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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