Blog da Ceci

Discussões sobre tendências, carreira e trabalho em Comunicação, para pensar e discutir

Eu simplesmente adoro quando me deparo com artigos como esse, do Greg Satell, que circulou numa das minhas news recebidas do Medium essa semana. Originalmente publicado em outubro/2018, no site da Inc. Magazine, me instigou a pensar sobre alguns pontos. Para além da exaltação dos humilhados povos de humanas, comumente colocados em plano inferior num subliminar ranking de importância de carreiras, traz um olhar muito bacana que volta e meia aparece em conversas e relatórios de tendências em trabalho e profissões do futuro às quais pessoas como eu, que circulam nos meios empresarial e acadêmico, temos acesso dia sim, outro também.

Basicamente está cada vez mais claro que a automação vai atingir tudo o que for possível – e que não precise necessariamente ser feito por gente. Isso é bom, pois, teoricamente, sobraria então mais tempo para nos dedicarmos a atividades que exijam pensar e usar nossas habilidades que nos diferenciam das demais espécies da fauna. E é aí que entra a exaltação de habilidades até então relegadas a lugares menos nobres, pois o quê exatamente é intrínseco das pessoas… hein? Devo um doce a quem comentar aí embaixo que são habilidades ligadas a aprender e adaptar-se constantemente, à empatia e comunicação.

Para quem acha que isso vai acontecer lááááááá na frente (ou que nunca deveríamos ter nos rendido a Darwin e a teoria da evolução das espécies), conto um caso da minha família, fresquíssimo. Nesta semana, minha sobrinha começou a trabalhar em uma multinacional das que têm filiais em Petrópolis – RJ. Ela está nos últimos semestres da graduação em Publicidade, depois de ter cursado os primeiros na graduação em Física. A área para a qual foi contratada? Sales, com a função de analisar contratos, checar compliance, conformidade etc. Por que ela foi contratada e não um aluno da graudação em Direito, por exemplo? A resposta do recrutador: sua habilidade de comunicação e relacionamento chamou atenção e é fundamental para a posição. Técnica, neste caso, se aprende.

E aí você pode pensar: pra quê então, cursar universidade por 2, 4, 6 anos, se você acabou de escrever que o curso da sua sobrinha ficou em segundo plano; temos casos de algumas profissões para as quais não é mais exigido o diploma (meu caso, Jornalista), e empregadores como Google já não exigem terceiro grau para determinadas posições? Vamos lá, gente, que o santo é líquido que nem o mundo: experiência, amadurecimento e o conhecimento adquirido numa universidade – seja na graduação, extensão, especialização, mestrado, doutorado – é um diferencial inquestionável e, até então, insubstituível. Quer a prova? Ainda não topei com seleção para estagiários de comunicação ou qualquer outra área de atuação de um jornalista que não seja feita com estudantes universitários, mesmo que o diploma não seja mais obrigatório.

O negócio é que o mundo muda o tempo todo mas gente segue sendo gente. E por mais que a tecnologia venha, nos afaste de algumas características que fazem de nós pessoas, o tempo passa e as ondas se alternam. Voltamos a ser cobrados por sermos gente e a mesma tecnologia, desenvolvida por nós mesmos, nos libera para isso. Vejam só, aabaixo, alguns trechos da análise do Meio para assinantes sobre a CES 2019 no que tange voz e tecnologia:

  • “É que voz, o Vale do Silício se convenceu, é o antídoto para a irritação que os usuários começam a demonstrar por seus celulares.”
  • ” E o produto que o Google alardeia por toda parte — nos vagões do monorail, nos outdoors e fachadas de hotéis, e de um canto ao outro do centro de convenções onde a feira é realizada — é o Assistant. Sua Assistente de Voz. Está dizendo para todo mundo: é seu produto mais importante.
  • “8% dos americanos ganharam uma caixa de som inteligente de Natal. É muita gente.” (os dados são da pesquisa Smart Audio Report – https://www.nationalpublicmedia.com/smart-audio-report/?utm_source=meio&utm_medium=email – feita pela consultoria Edison para a NPR (https://www.npr.org/), a Rádio Pública Nacional dos EUA.

Comecei o texto com uma brincadeira, mas o assunto é muito, muito sério: o último Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf), de 2018, feito pelo Ibope Inteligência e desenvolvido pela ONG Ação Educativa e pelo Instituto Paulo Montenegro, apontou que três em cada dez jovens e adultos de 15 a 64 anos no país, ou 29% do total, o equivalente a cerca de 38 milhões de pessoas, ou a soma das populações dos estados de Minas e Rio, são considerados analfabetos funcionais. Na edição mais recente do PISA, o Program for International Students Assessment, de 2015, os resultados dão ideia do quanto estamos longe do aceitável. Enquanto isso, assistimos a discussão sobre doutrinação ideológica, azul, rosa, modelo cívico-militar etc. Queria terminar como comecei o texto, mas só me vem à cabeça Novos Baianos com “lá vem o Brasil descendo a ladeira…”.

Partiu mudar isso com o que for possível a cada um de nós, já?

E 2019 está só no 10º dia…

*Atualização em 11/1/2019, do Estadão: apenas 1/4 dos trabalhadores brasileiros conseguiu estudar tempo suficiente para ganhar acima da média nacional, de R$ 2,1 mil

* Atualização em 15/1/2019, também do Estadão: matéria de 14 de janeiro de 2019 traz pesquisa realizada pelo Todos pela Educação, que aponta que quase 4 em cada 10 jovens de 19 anos não concluíram o ensino médio na idade considerada ok. 

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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