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Marília Mendonça: tristeza, espanto e, esperamos, algum aprendizado

nov 2021 | Carreira, Comportamento, Comunicação, Conteúdo, Gestão de Crises, Imagem, Imprensa, Jornalismo, Mídias, Reputação, Trabalho, Universidade

Marília Mendonça morreu ontem, 5 de novembro, aos 26 anos, de forma trágica. A perda da mulher, mãe, artista, símbolo, ídolo e todas as representações que cabiam naquele corpo pequenininho e na voz de trovão é irreparável, como a de todos os quatro homens que estavam com ela. Ficam para trás filhos, familiares, amigos, sonhos. Diante de nós, uma discussão sobre responsabilidade. Marília Mendonça pode nos ensinar em meio à tristeza e ao espanto.

Assim que aconteceu o acidente, a assessoria de imprensa da artista mentiu e desinformou. Escrevo essa frase, releio e me dói. Assessoria é onde forjei minhas primeiras experiências profissionais, lidando com todos os tipos de clientes e, especialmente, crises.

Imediatamente, o assunto tomou o grupo de uma das minhas turmas de graduação. Meus focas (como são chamados os jornalistas em início de carreira) analisaram o passo a passo das coberturas, os comentários, as notas oficiais, o que veículos on-line, tevês e perfis no Twitter e Instagram divulgavam. As análises foram um conforto em meio à tragédia que é a morte de pessoas (tragédia essa que, diga-se, vem naturalizada há tempos para nós por aqui).

Eu raramente escrevo a partir de assuntos que estão saturados. Mas neste momento, trata-se de questões diretas sobre minha atuação profissional e que são do interesse de grande parte das pessoas que me acompanha. Assim, para responder às mensagens e pedidos, aqui estão alguns pontos que sintetizam sugestões para discussões importantes que o jornalismo precisa — e deveria — fazer, assim como toda a sociedade, uma vez que somos totalmente interdependentes.

Em gestão de crises, não adianta mentir e desinformar

Em gestão de crises, os fatos se impõem. Significa que não adianta criar uma versão baseada em alguma interpretação que seja mais favorável, porque é questão de tempo para a realidade gritar no mundo lá fora. Já vimos esta regra valer em diversos casos. Marília Mendonça pode nos ensinar que não há exceção.

Não há desculpa para mentira e desinformação.

Sabemos o quanto é difícil apurar sob pressão ou mesmo quando ainda não há informações disponíveis. Neste caso, o que fazemos se precisamos, ou sim, ou sim, informar? Informamos o que temos.

Fomos surpreendidos pela informação sobre o acidente com o avião que levava Marília Mendonça para o show desta noite em Caratinga (MG) e estamos apurando tudo o que podemos para divulgar a todos tão logo seja possível, priorizando o respeito aos familiares de todos que estavam na aeronave e aos fãs.

Não cabe inventar. Não cabe se precipitar. Não cabe dizer para desdizer na sequência.

Jornalismo é um refúgio para sabermos o que de fato está acontecendo

Aconteceu logo no princípio da pandemia, aconteceu ontem. Queremos saber o que de fato está acontecendo? Pedimos socorro aos jornais. Por quê? Porque podemos não ter muita ideia de como trabalham os jornalistas, mas sabemos que o produto notícia tem credibilidade. E por que isso ocorre? Porque há uma coisa chamada processo.

Da mesma forma que todas as profissões têm seus métodos e conjuntos de práticas, nós também temos. Pauta, apuração com mais de uma fonte, e não somente com a assessoria, ou com posts de redes sociais, CHECAGEM…

Este processo deve ser feito tanto nas redações, quanto nas assessorias. Uma pessoa jornalista na função de assessoria de imprensa é, e precisa se compreender como, parte do processo de produção da notícia, porque há algum tempo isto já ocorre (essa realidade, inclusive, foi motivadora da minha abordagem do jornalismo para além das redações em minha pesquisa de mestrado, defendida em junho deste ano).

Não adianta reclamar dos excessos se nós mesmos desejamos por eles

Marília Mendonça pode nos ensinar

Reprodução de mensagens de WhatsApp entre mim e a turma de assessoria de comunicação do turno da manhã na Universidade Veiga de Almeida (UVA-RJ)

Marília Mendonça pode nos ensinar a sermos uma sociedade menos ávida pela desgraça alheia.

Precisamos de close nos corpos sendo retirados dos destroços da aeronave? Grande parte das pessoas que vai ler este texto já perdeu alguém. Gostaríamos de estar no lugar de algum deles, de seus familiares, amigos próximos? Gostaríamos de ser a pessoa morta exposta desta forma?

Vejam bem, não é minha intenção uma abordagem ao estilo “culpa de”, e sim “pensemos sobre”. Assim, podemos não somente compreender, em vez de reagir, como, quem sabe, adotar novas barras para esse tipo de situação. Como jornalistas e como sociedade.

No jornalismo, há, como em todas outras indústrias, uma cadeia de hierarquia. Quem manda, quem obedece, quem consome, quem dá audiência. Todos têm suas parcelas de responsabilidade. Uns mais, outros menos, é fato. Mas todos são responsáveis em alguma medida.

Significa dizer que se as coisas são como são é porque há pessoas que ganham com isto, sempre no plural. Lembrem-se desta frase antes de cancelar profissionais (não somente no jornalismo, como em qualquer outra área).

O conforto é saber que a tristeza e o espanto pela morte precoce da Marília Mendonça e das outras quatro pessoas foi absorvida pelos meus estudantes com maturidade, com senso crítico, com responsabilidade sobre o quanto cada um deles têm sua cota de poder fazer diferente. É isto que me mantém jornalista e professora.

Função de jornalista deve ser exercida por jornalistas

Marília Mendonça pode nos ensinar

Reprodução do Twitter

Mariana Jungmann está certa. Já virou case. Live case. Case ao vivo. Marília Mendonça pode nos ensinar a sermos menos condescendentes com a precarização das profissões. Nesses momentos, por exemplo, cabe questionar: a confirmação de que todos estavam bem após o acidente foi feita por profissionais jornalistas, ou por pessoas que atuavam como sob as brechas da não obrigatoriedade do diploma?

Percebamos que por trás de toda precarização, há consequências.

É nessas horas que cabe questionar se vale mesmo à pena demonizar o ensino universitário. Dizer que diploma não garante colocação do mercado de trabalho e reproduzir mais um monte de lugares comuns ajuda a esconder raízes como a manutenção de desigualdades, a falta de investimento na criação de oportunidades, de um projeto de valorização da educação.

É isso o que queremos?

Novamente, Marília Mendonça pode nos ensinar a sermos mais críticos. E a assumirmos nossa parcela de responsabilidade. Informar é uma enorme. Requer, dentre outras coisas, ter noção dos impactos dessa informação na sociedade.

A gente estuda para isso.

Vou repetir aqui uma pergunta que ouvi outro dia em uma aula: você contrataria uma pessoa que não é formada em engenharia civil se precisasse construir um viaduto? A questão veio acompanhada de um debate sobre o quanto nós, que atuamos na comunicação, sofremos com o fato de todos, em alguma medida, se sentirem capacitados para fazer o mesmo, uma vez que comunicação é intrínseca à nossa vida.

Marília Mendonça pode nos ensinar

Marília Mendonça pode nos ensinar

Reprodução de mensagens de WhatsApp entre mim e a turma de assessoria de comunicação do turno da manhã na Universidade Veiga de Almeida (UVA-RJ)

Sou uma otimista cautelosa. E aí acima está a prova de que eu tenho razões para pensar assim. É este o propósito por trás de eu me dividir em quatro profissões, uma delas a de professora.

Acredito que esta é a minha maior responsabilidade: ajudar a formar profissionais melhores do que eu sou. Ainda, levar essa crítica para as empresas por meio de projetos que avançam a partir do questionamento, inovam a partir de soluções conscientes e responsáveis, são instrumentos para o desenvolvimento de outras pessoas em relação à responsabilidade que é comunicar e informar.

Com respeito às pessoas, o que no caso é sempre a nós mesmos.

Se você gostou desse post, divide comigo suas reflexões 😉

 

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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