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Como manter o foco e a motivação de quem conta contigo

nov 2020 | Comportamento, Comunicação, Educação, Mentoria, Oportunidade, Trabalho

Vocês sabem que eu dou aulas na graduação. Convivo diariamente com jovens que poderiam ser meus filhos. Sim, meus filhos (me choquei com essa constatação este ano). Oito meses após a virtualização das aulas, o que sinto é uma enorme apatia de todes e isso me força a um exercício duríssimo para que eu consiga manter o foco e a motivação de quem conta comigo.

Isto porque eu sou muito suscetível às emoções e aos ambientes. Absorvo como uma esponja. Se a turma está numa vibração baixa, eu preciso dar uma descarga de energia para conseguir funcionar. E se você é como eu e está sentindo que o esforço está cada vez maior para resultados minimamente satisfatórios, e não plenos, como esperamos, listei nesse post o que eu eu faço, e que pode servir para abrir o diálogo. Porque os desafios que temos enquanto sociedade são enormes, e o duro é que a gente sabe o quanto comprometem essa geração que está aí com o pé na porta de trabalho, carreira, realizações e felicidade.

 Obrigação, vocação e paixão

Antes de compartilhar o que tenho feito para tentar manter o foco e a motivação de quem conta comigo, quero dividir com vocês uma reflexão proposta hoje num post do Vítor Coff Del Rey no LinkedIn que não sai da minha cabeça:

Como manter o foco e a motivação de quem conta contigo considerando essas variacões? Via Vítor Coff Del Rey, publicado originalmente no LinkedIn em 17/11/2020

Essa reflexão traz as complexidades da nossa sociedade e suas raízes.

“No fim do dia, é só uma SOCIEDADE racista, machista, classista e meritocrática, o problema é que não é possível falar em meritocracia em sociedade cortadas por raça, classe e gênero. Qual o resultado na prática: o sonho da jovem era ser médica, só deu para ser técnica em enfermagem. Já o médico, queria ser poeta, mas a família classe média alta tradicional de médico o imputou para medicina. Ambos estão de certa forma, “profissionalmente infeliz”, só que uma é um infeliz pobre outro sempre foi infeliz rico”, escreveu o Vítor..

É aí que entra o contexto agravando os determinismos. No dia 31 de outubro, a Fernanda Brigatti publicou na Folha Carreiras uma matéria mostrando que as condições para o primeiro emprego dos jovens haviam piorado. Abaixo, trechos:

“Quero qualquer coisa, e o que vier está valendo.”

“Os últimos sete meses, porém, a maratona pela busca de vagas ocorre diante do computador.”

“Achei umas vagas, mas eram para trabalhar em casa e eu não quero. Pode ser em mercado ou coisas administrativas, o que aparecer está bom.”

“Para segurar as contas, vem fazendo bicos e chegou a trabalhar por meio de aplicativos de transporte.”

Unindo as referências

O que o post do Vítor e a matéria da Folha têm em comum? O fato de que estamos numa clássica sinuca de bico, meuzamigos, e que é urgente uma discussão séria sobre o que estamos fazendo com esse país. Sem exceção, os jovens entrevistados nessa matéria estão caminhando para ser o que der, e não o que querem — e podem, ou, pelo menos, deveriam poder.

Outro ponto: a necessidade de mediação que muitas vezes é o que inclui, ou invizibiliza. Observem que desde a busca por emprego, que no contexto de pandemia ocorre em sites e plataformas, até a saída de gerar renda via aplicativos de transporte (e outros), passa pelo acesso a um dispositivo, à internet e por saber como usar para esses fins.

Os jovens entrevistados  poderiam ser meus alunos. Tenho aqueles que não se sentem capazes porque o peso do sucesso exclui a possibilidade de dar errado e começar de novo, os que trabalham para pagar a faculdade, mas longe da área que escolheram (o que dá, não o que podem e querem fazer), os que nem trabalho têm e se questionam por que seguir estudando…

Como manter o foco e a motivação

Mas a gente tá ali, cara a cara. Então, vamos ao título: o que eu faço para manter o foco e a motivação de quem conta comigo. Esses são meus quatro pilares,  check list diário que uso para manter meu foco:

  1. Vigília constante nos limites da responsabilidade que me cabe: em vez de uma postura de ajuda, escuta, troca, contribuição, de um lugar de quem tem mais experiência não porque sabe mais, mas porque é um pouco mais velha e já viveu questões parecidas.

  2. Não deslegitimar a dor do outro: não é porque não foi assim comigo, ou não é assim que eu sinto, que o outro não tenha o direito de sentir da forma como está relatando. Ouvir, escutar, acolher tem dado mais resultado do que aconselhar.

  3. Compreender o contexto: estamos todes exaustos, carentes de uma rotina sem as restrições físicas, econômicas, sociais etc. que a pandemia e o momento de país nos impõem.

  4. Mais colaboração, menos competição: é duro? Sim, mas é mais ainda se estivermos competindo. Tenho exercitado isso como método em sala, em pequenas coisas que muitas vezes passam batidas. Exemplo? Me nego a usar aplicativos de quizz e competições de perguntas e respostas (ok que isso também é porque torço o nariz para esse caráter “animação de festa” que às vezes exigem de nós, professores, mas isso é papo para outra hora).

Acredito que meu papel como professora e mentora dessas pessoas, algumas ex-alunes ou mesmo colegas de trabalho, pesquisa, vida, é falar abertamente, indicar caminhos, ajudar a furar as bolhas, encorajar na busca por alternativas, instrumentar com conhecimento, referências, contextos para que eles compreendam que a falha não é deles, não são fracassados, têm, sim, capacidade. E devem tentar.

Nesse processo, eles também me ajudam a manter o foco, e a me manter sã, porque eles também contam comigo.

 

 

 

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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