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O que a CPI da Covid evidencia sobre a Comunicação Nossa de Cada Dia (não, esse não é um artigo sobre gestão de crise)

maio 2021 | Comunicação, Democracia, Estratégia, Imprensa, Jornalismo, Pesquisa, Política, Sem categoria, Tecnologia

O festival de cinismo que tem desafiado os sentidos de qualquer pessoa que não esteja entre os 24%[1] que aprovam o governo e a pergunta “o que a CPI da Covid evidencia sobre a comunicação nossa de cada dia” abre avenidas para a gente discutir.

É claro que não vamos dar conta de tudo. Por esta razão, este artigo foca em três pontos. Estes, têm chamado a minha atenção desde o dia 12 de maio, quando o ex-secretário de comunicação da Presidência da República, Fábio Wajngarten, prestou depoimento. Isto porque são questões que a gente precisa discutir como sociedade, da mesma forma que nos mobilizamos para cancelar as celebs que não seguem as regras de etiqueta virtual da Keila Mellman.

CPI da Covid

Foco no roteiro

  • Mentira dita.
  • Print exibido.
  • Cara de pau.
  • Próxima pergunta.
  • Mentira dita.
  • Gravação reproduzida.
  • Cara de pau.
  • Próxima pergunta.

 

E vamos aos três pontos

Viver na bolha é uma escolha.

É impossível negar que as bolhas têm suas vantagens e confortos. Afinal, não é lindo um mundo à nossa imagem e semelhança, no qual todos acham igual (o verbo achar está aí intencionalmente), odeiam igual, idolatram igual…

Significa dizer que esse mundo é o da comunicação do igual, simplificada, sem arestas, sem necessidade de diálogo, porque é feita para ser viral e se espalhar rápido, assim mesmo, como o vírus que já matou 442.000 pessoas.

Por isso, quando o assunto é bolha, o que a CPI da Covid evidencia sobre a comunicação nossa de cada dia é que, ainda que você viva nela, esta não é a única. Ou seja, ainda que você acredite que tudo que você acha normal o é, que talquei ser governado por memes, você não é todo mundo. Se preferir, ainda que você odeie, tem gente que ama. Ou mesmo ainda que você idolatre, tem gente que resiste no senso crítico.

 

Goste ou não, o jornalismo salva.

Jornalista, ô raça! Quem aí é coleguinha e está lendo isso já perdeu as contas de quantas vezes ouviu essa frase.

Mas, gente, em um governo autoritário e genocida, não fosse o jornalismo estaríamos todos na bolha da turma do presidente. Ou seria na chapa? Existe bolha na terra plana? Enfim, foco, Ceci.

No entanto, é das redações da imprensa tradicional, independente, de checagem, dos jornalistas independentes, como o Rubem Berta, que vêm os fatos que confrontam a desinformação, o tratamento precoce, o eu não disse isso, só faltou oxigênio em Manaus por três dias e paro por aqui porque me sobre a pressão.

Acima de tudo, o que a CPI da Covid evidencia sobre a comunicação nossa de cada dia neste caso é que, quando o assunto é jornalismo, ruim com ele, muito pior sem.

Caminhando e cantando e seguindo a canção

Como todos os profissionais, nós erramos. A dita mídia tradicional e seus meios de produção tem horas que nos fazem sentir vergonha do diploma. Se crítica de mídia no país fosse um bebê, estaria na fase de aprender a rolar. Tudo isso é verdade.

No entanto, o jornalismo é um processo. Apesar do sufocamento da pesquisa, um monte de gente dedica suas vidas, seu tempo e, na grande maioria das vezes, seu dinheiro para avançar no conhecimento em jornalismo e comunicação. Nesse processo, ganha a sociedade.

 

A mesma rede social que te ajuda a propagar desinformação e incitar o ódio vai permitir te desmascarar.

Licença, Lavoisier: no digital nada se apaga e nada se elimina, tudo se printa e compartilha. Alguém precisa avisar à turma.

Antoine Lavoisier(sim, essa dica serve também para você que está aí colecionando biscoitos com hashtag eu mereço)

Nesse sentido, a CPI da Covid evidencia sobre a comunicação nossa de cada dia neste tema é que, cedo ou tarde, ou antes tarde do que mais tarde, o virtual encontra o real. Não somente em relação ao on e off-line, mas também ao que você acredita e o que de fato acontece, que nem sempre são a mesma coisa.

 

Furar bolhas é um dever.

Um dever nosso.

 

Por isso, olhar crítico e uma dose de realidade diária são fundamentais para relativizarmos nossas verdades absolutas, crenças, certezas e até mesmo angústias em um país com quase meio milhão de mortos e 116 de famintos.

Então, a CPI da Covid evidencia sobre a comunicação nossa de cada dia é que todos podemos estar mais atentos. Se até o Renan Calheiros (quem diria que um dia estaríamos aqui aplaudindo) entendeu que é preciso checagem, é para parar e refletir se já não é hora de questionar mais e reagir menos.

 

Dicas de leitura para expandir as discussões sobre esses temas:
  • A dificil democracia. Boaventura de Sousa Santos. Boitempo.
  • Big Tech: a acensão dos dados e a morte da política. Evgeny Morozov. Ubu.
  • Corpos em aliança e a política das ruas. Angela Davis. Civilização Brasileira.
  • Mídia, propaganda política e manipulação. Noam Chomsky. WMF Martins Fontes.
  • Mulheres, cultura e política. Angela Davis. Boitempo.
  • Os engenheiros do caos. Giuliano da Empoli. Vestígio.
  • O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você. Eli Pariser. Zahar.
  • Pós-verdade e fake news: reflexões sobre a guerra de narrativas. Mariana Barbosa (org.). Cobogó.
  • Sociedade da Transparência. Byung-Chul Han. Editora Vozes.

 

[1] Pesquisa Datafolha.

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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