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Discussões sobre tendências, carreira e trabalho em Comunicação, para pensar e discutir

Comunicação, Universidade e Sociedade Democrática

abr 2019 | Adaptação, Comunicação, Educação, Jornalismo

A evolução das tecnologias de informação e comunicação como meios utilizados por sistemas econômicos e políticos dentro de um contexto de exercício seja da dominação de classe, seja da democracia, trouxe consigo a necessidade de olhar em primeiro plano para em que medida o lugar ocupado pelo comunicador no exercício da sua função tem influência na liberdade de expressão e de informação dos cidadãos, impactando na democracia. Esses profissionais são parte de um processo que, ao mesmo tempo em que permite e amplia o acesso à informação, interfere no cerceamento da liberdade individual de informar-se, em meio às tecnologias que permitem aplicar a lógica da comunicação de massa individualmente. E me arrisco a dizer que os jornalistas que formamos saem das universidades sem clareza sobre a responsabilidade que os aguarda uma vez que estejam inseridos no mundo do trabalho.

É preciso tratar o tema como pauta do dia nas universidades, pois é também uma forma de fazer com que a troca de conhecimento existente com a sociedade ajude a trazer maior clareza sobre as responsabilidades na produção e no consumo de informação, o que não é uma discussão nova. Há registros do final do século XVII sobre discrepâncias entre relatos dos mesmos eventos em diferentes jornais, além de citações à regularidade com que relatos posteriores contradiziam os anteriores. Ocorre que notícia – ou informação divulgada – é produto da atuação de toda uma cadeira de profissionais, acesso às fontes, discussões sobre permissões e censura de informações a partir da avaliação de riscos e impactos de uma ou outra versão, prazos, dentre outros fatores, que levam não só ao formato final do que vai a público, mas também como a divulgação será feita. E este processo nem sempre é claro para o próprio comunicador (especialmente aqueles recém-saídos das faculdades) – além da própria sociedade.

Credibilidade

Noves fora a possibilidade permanente de se pôr em xeque a credibilidade da mídia, notícias – ainda – são reconhecidas como sinônimo de confiabilidade e credibilidade por serem produto de apuração de informações que correspondem à verdade dos fatos, permitindo aos cidadãos compor o que entendem por realidade e desenvolver senso crítico em relação aos mecanismos formais de poder e governo. A dinâmica de comunicação de massa ainda vigente determina serem os meios a selecionar e dar forma às mensagens a partir do uso estratégico do poder político e social para influenciar as agendas, assim como ativar e enquadrar questões públicas, como detectou Habermas (2008).

Aldé, Xavier, Barretos e Chagas (2005), pesquisadores do programa de pós-graduação em comunicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (PPGCom UERJ), citam as regras de noticiabilidade como base para o processo de seleção e exclusão de notícias, segundo as quais fatos são noticiados pela sua disponibilidade ou facilidade de acesso às informações, ou, ainda, pela fidelidade das fontes. Soma-se ao contexto atual o esforço empenhado pela imprensa para dar mais confiabilidade ao noticiário, bem como o surgimento e o reconhecimento do trabalho das agências de checagem, além das inúmeras iniciativas de jornalismo independente que tomaram forma a partir, dentre outros fatores, das demissões nas redações e da ampliação do acesso às tecnologias de informação e comunicação disponíveis, o que ampliou consideravelmente a diversidade na cobertura jornalística.

Em outra paralela, agências de comunicação e assessoria de imprensa têm em alguma medida poder de manipulação de narrativas a serviço do interesses de clientes. O lugar dos jornalistas comunicadores – seja nas redações, seja no segmento empresarial – é o de profissionais cuja atuação precisa levar em conta de forma consciente os impactos atuais para a sociedade democrática.

Transformação como realidade

Mas como pôr em prática essa discussão e permitir a prática de forma a preparar os alunos para atuar em contexto em profunda transformação (e por que não dizer um novo contexto que rompe totalmente com os paradigmas anteriores de produção, emissão e recepção de mensagens)? Hoje, leitores, ouvintes, telespectadores produzem furos de reportagens; governantes se comunicam diretamente com a população por lives em redes sociais e coletivas de imprensa são cada vez mais raras; sociedade consome e confia na informação recebida por redes sociais, WhatsApp, Youtube, em detrimento do que é produzido pela então mídia tradicional; os conteúdos estão cada vez mais dispersos; a tecnologia permite total independência num processo que, antes, passava obrigatoriamente pelos grupos de mídia. Mesmo com as evoluções curriculares promovidas recentemente pelas universidades de qualidade, a estrutura de formação dos comunicadores atuais ainda está longe da realidade em prática.

Especialmente em se tratando do jornalismo onde, apesar da não obrigatoriedade do diploma, as universidades seguem sendo a porta de entrada para o trabalho, não é mais possível formar um bom profissional calcado somente em experiências de mídias tradicionais e não integradas, rotinas de reportagem impressa, on-line, rádio e vídeo. Estas são fundamentais para formar alguém capaz de produzir notícia, sem dúvida. Entretanto, como fazer com que alunos sejam capazes de se adaptar em redações cada vez mais enxutas e multidisciplinares, agências com oferta cada vez mais vasta de serviços, equipes de marcas com necessidades básicas ainda não atendidas, sociedade com demandas diversas e públicos organizados de forma cada vez mais personalizada, possibilidades estratégicas que permitem seguir a lógica de massa aplicável individualmente? Como fazer com que alunos experimentem a responsabilidade e o impacto da sua atuação e como influencia na liberdade de expressão e de informação dos cidadãos, podendo impactar na democracia?

De fato não existe resposta nem alternativa única para esses questionamentos. Mas um caminho é aprofundar e trazer para primeiro plano as repercussões culturais e materiais das tecnologias de comunicação e informação, especialmente as novas tecnologias, e suas implicações para a sociedade. Além de produção de debate e conhecimento sobre o tema, contribui de forma crítica para um melhor entendimento das dimensões intelectuais da atuação do jornalista e do comunicador, a partir das articulações entre tecnologia, comunicação e cultura/sociedade. Esse debate deve ocorrer para além das disciplinas. Deve estar presente no dia a dia de prática profissional dos alunos, dentro da universidade. Também devem permear uma prática diversa, que permita que o aluno sinta na pele o que é e o que implica atuar em comunicação. Agências de notícias, rádios, TVs universitárias seguem sendo fundamentais. Mas igualmente importante tornam-se laboratórios inexistentes e secundários até há pouco tempo: aqueles que abordam a atuação “do outro lado do balcão”, na comunicação corporativa, no jornalismo empresarial, nas agências, marcas, consultorias e diversidade de alternativas de trabalho e atuação nessa cadeia extensa e cada vez mais diversa, com revezes e novos postos de trabalho.

Trabalhar experiências ao longo da vida acadêmica por todas as dimensões da atuação do jornalista é preparar o aluno para se inserir mais rapidamente no mundo do trabalho e adaptar-se às mudanças em curso e que ainda virão – das quais temos nortes e tendências, mas igualmente estamos sujeitos às intempéries possíveis em um cenário tão volátil.

 

REFERÊNCIAS:

ALDÉ, XAVIER, BARRETOS e CHAGAS Critérios jornalísticos de noticiabilidade: discurso ético e rotina produtiva, disponível em ALCEU – V.5 – n.10 – p.186 a 200 – jan-jun/2005.

BRIGGS, A. BURKE, P. Uma história social da mídia: de Gutemberg à internet. 3a edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

CASTELLS, M. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. 1a edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

CHAUÍ, M. Comunicação e democracia. Paulus – revista de comunicação da FAPCOM, vol. 1 – no 2 – 2o semestre de 2017.

HABERMAS, J. Comunicação política na sociedade mediática: o impacto da teoria normativa na pesquisa empírica. Líbero, Ano XI – no 21 – junho de 2008.

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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