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Ancestralidade da tragédia

fev 2022 | Adaptação, Comportamento, Democracia

Spoiler: esse texto talvez não tenha uma estrutura plausível, porque ele é resultado da minha necessidade de tentar elaborar o que está acontecendo depois do que aconteceu com a minha cidade e suas pessoas na última terça, dia 15 de fevereiro de 2022. Também não terá rigor jornalístico. Não vou me ater aos fatos, como normalmente faço. Vou escrever livremente, com base no que sinto como petropolitana e, com tal, com uma cultura de convivência com a tragédia como parte do calendário anual.

Prólogo

Acordo. Abro os olhos.

Esse barulho são sirenes?

Bombeiro ou polícia?

Bombeiro.

Levanto, abro a janela. O apartamento no 8º andar da Rua João Pessoa, hoje Dr. Nélson de Sá Earp, é de frente. Dava para ver a Praça da Liberdade ao olhar para a esquerda e a “vinida“, na direita. Um cheiro de lama que sobe com o sol de serra no verão entra no meu nariz.

Tenho 9 anos. Havíamos acabado de voltar para o Centro de Petrópolis, onde morávamos nos meses úteis, porque o João Gabriel, meu irmão mais novo, tinha nascido. Estávamos no sítio, onde morávamos nas saudosas férias escolares de 3 meses, e viemos num Jipe Ford amarelo ovo com capota de plástico que só tinha 3 marchas.

A bolsa da minha mãe estourou de madrugada e viemos voados no lamaçal que se transformava a estrada com as chuvas de verão. Meu pai com o pé no fundo do acelerador e o motor gritando para manter os 80Km que eram a velocidade máxima do Jipão, minha mãe quase em pé no banco para segurar as contrações em meio ao pula-pula na buraqueira.

Daniel tinha 6 anos e não conseguia ficar acordado. O Jipe não tinha banco atrás. Então, eu sentava em cima da lataria de um lado e segurava o Daniel dormindo, Pedro do outro lado fazendo o papel de copiloto para meu pai.

Chegamos no Hospital Santa Teresa, no 1º distrito, 1h30 depois, todos imundos de lama. Meu pai saiu correndo com a minha mãe, eu e Pedro ficamos no Jipe com o Daniel dormindo, no estacionamento do hospital.

Morríamos de medo, porque era super escuro, chovia muito muito muito. A gente achava que o carro ia ser roubado e o ladrão não veria a gente. Daí passamos a noite pensando como a gente ia fugir se o Daniel estava dormindo. De repente, amanheceu, meu pai apareceu e nos levou para casa.

Cheiro quente

Um cheiro de lama que sobe com o sol de serra no verão entra no meu nariz.

Não tem água. O banheiro fede a xixi sem dar descarga.

Na cozinha, subo num banco para pegar alguma coisa no armário de cima da pia, que eu não alcançava só de subir em cima dela.

O banco vira, faz barulho no chão, minha mãe aparece gritando, em desespero, achando que o prédio estava desmoronando.

1988. Estado de calamidade pública. O que é isso?

A cidade é só lama, sirene e gente morta. Alguns conhecidos. Minha mãe chora meio escondida da gente.

Um cheiro de lama que sobe com o sol de serra no verão não sai do meu nariz.

“O Cuiabá acabou. Tá cheio de gente morta. Ajuda a gente.”

Francisco, acordou?

Já deu a mamadeira para o Inácio, Memene?

Peraí rapidinho que já vou aí. Estou só terminando de resolver um negócio aqui no escritório.

Alô? Alô? Oi, Lu, não consigo te ouvir direito. Fala mais alto.

Cecília, o Cuiabá acabou. Tá cheio de gente morta. Ajuda a gente.

12 de janeiro de 2011.

Para tudo. Liga para Bombeiro, Band News FM Rio, amigos, começa a recolher doação.

Não dá para entrar no Cuiabá. Tem que esperar abrir passagem porque a Lu estava certa, acabou.

Só vai dar para ir na sexta.

Será que a gente ainda tem casa?

Não dá para passar, só com carro 4×4.

Oi, moço, tudo bem? A gente é morador. Sobe, vai na casa de vocês. A gente não tem condições de subir no Cantagalo. Se começar a chover tem que descer imediatamente porque se alguma coisa acontecer a gente não consegue ir lá.

Tudo bem, vamos deixar as doações na igreja e tentar ir até a nossa casa.

Anda, corre, pega cobertor, roupa, os remédios, comida.

Tá chuviscando, anda, anda, vambora! Trancou tudo?

Tá sentindo esse cheiro?

Tô. É o cheiro de lama que sobe com o sol de serra no verão.

Tá diferente agora, não tá?

Claro! Tá cheio de gente e bicho morto aí no meio desses muros de lama.

Ancestralidade da tragédia

Eu também tinha 9 anos em 1988, amiga. Minha filha, hoje, tem 9 anos e está vivendo a mesma coisa. Acho que a gente está construindo uma espécie de ancestralidade da tragédia.

Essa fala é de uma amiga com quem conversei ontem. Estávamos falando sobre como o sentimento de luto e resignação toma as nossas vidas.

Pagamos com vidas o descaso e a falta de respeito com a natureza da qual achamos que não somos parte, mas somos.

A quem interessa esse acordo de morte?

Nesse momento, pec do veneno, garimpo artesanal, nióbio na Amazônia, assassinatos no campo e um monte de velhas novas violências se impõem e tornam ainda mais forte o cheiro quente de lama.

Foco.

Ajuda. Quem está precisando de quê? Oi, perdeu tudo? Qual é a prioridade? Sim, claro, vamos mobilizar a recolha dos itens para essas coisas. Gente, olha só: o pessoal da escola que foi atingido tá precisando…

Previsão de chuva forte para hoje à tarde. 100mm. Não venham para o Centro. Fiquem onde estão. O risco é grande.

Impotência?

Como conseguir trabalhar, tocar o meu dia, enquanto tem gente soterrada, gente sem nada, gente sem filho, sem pai, sem mãe, sem gente?

Ela morreu porque não conseguiu respirar, disse a mãe em choque, olhar vazio.

Eu queria estar cavando a lama com as mãos.

Mãe, posso te pedir uma coisa? Não vai pra lá.

Dói. Choro. Paro.

Por que você tá abraçando tanto a gente?

Um cheiro de lama que sobe com o sol de serra no verão não sai do meu nariz.

Quem ganha, quem perde?

Petrópolis tem o aluguel mais caro da Região Serrana e o nariz mais em pé. Tem uma geografia e geologia que, juntas com a falta de planejamento urbano e a desigualdade, são tragédia anunciada.

Ah, mas a super célula, como chama o fenômeno que trouxe a maior chuva da história da cidade, não dá para prever.

Mas a desigualdade dá. A exclusão dá. A ausência do poder público também dá. A política de morte. O jeitinho. O descaso.

Dá.

O governador do Rio foi recebido com vaias. Enfim, uma boa notícia.

Este ano há eleições majoritárias. Leiamos os programas de governo.

A quem interessa a nossa morte?

E o que vamos fazer em relação a isso?

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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