Blog da Ceci

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A curiosidade inventou a humanidade*

mar 2019 | Adaptação, Comunicação, Inovação, Pesquisa, Trabalho

Essa semana recebi da Aberje o relatório State of curiosity, da Merck. Trata-se de uma pesquisa com os colaboradores da multinacional sobre o quanto são curiosos. “In the pursuit of human progress, the single most important trait is curiosity – the desire to learn, explore, and discover. It is the driving force for new possibilities.” afirma Stefan Oschmann, Chairman do Executive Board e CEO da empresa na apresentação do documento. Em tradução livre, “Na busca pelo progresso humano, a característica mais importante é a curiosidade – o desejo de aprender, explorar e descobrir. É a força motriz para novas possibilidades”. 

Somos uma espécie de curiosos. Ou éramos? Tom Zé, de quem peguei emprestado de um trecho da música Salva a humanidade* o título desse post, também acredita que nosso progresso veio dela. Entretanto, parece que, em alguma medida, quem nasce sob a égide da vida contemporânea – e não se adaptou a ela, como nosotros – está com menos ganas de descobrir e conhecer. No relatório da Merck, os nascidos a partir de 1995 ficaram com o título de menos curiosos.

O relatório chegou no mesmo momento em que discutimos, nas aulas do Mestrado, na UERJ, a revisão do humano. Resumidamente, como as tecnologias e a sociedade midiatizada colocam em xeque o que é ser humano – e a partir daí toda a problemática que vivemos, conscientes ou não, de estar nesse mundo que parece louuuuuco que só, se tomamos como referências os conceitos e instituições como conhecemos quando nascemos nós, que estamos dos 40 em diante.

Em alguma medida, estamos delegando tarefas para a tecnologia. Em alguma medida, não somos os únicos a ter inteligência. Em alguma medida, não somos mais parte da natureza. Em alguma medida, descobrimos que não sabemos. Em alguma medida, seguimos pesquisando, buscando transformar o que somos e como fazemos. Em alguma medida, precisamos tentar fazer com os que vêm logo atrás de nós sigam com ganas de fazer perguntas para o que não fomos capazes, e contestar nossas respostas prontas e identidades inacabadas (GILROY, 1993). Em alguma medida, precisamos seguir provocando com perguntas – ainda que óbvias.

Semana passada estava em sala, discutindo como melhorar a comunicação entre professores e alunos numa nova turma da pós-graduação em Mídias e Tecnologias em Educação, na UVA. É sempre uma troca muito rica, pois sou eu, novata no assunto e recém-integrada ao mundo da pesquisa, com algo em torno de 35 professores mestres, doutores, pessoas que admiro pela experiência na arte de resistir tendo como propósito transformar o status quo por meio do conhecimento. Após um passeio pelo contexto atual e nossos pré-conceitos e falta de empatia, saí da sala com Saiba, do Arnaldo Antunes, na cabeça. E fiquei martelando por que essa música aflorou do nada depois de três horas de trocas intensas. Descobri no dia seguinte que era por conta da abertura pro mundo que temos quando crianças, e como isso veio à tona após todos nos questionarmos sobre como transformar. Talvez porque seja mais simples do que pensamos – bastaria a curiosidade seguir acesa vida afora?

E daí o relatório da Merck, que provoca o pensar naquelas pessoas impactadas com as perguntas que levaram ao relatório. E chama atenção no mundo corporativo do quanto nossa forma de trabalhar acachapou o pensamento e nos afastou – e ainda afasta – do que é ser humano. Mas ainda há tempo. Sempre há. O negócio é não nos rendermos à preguiça, ao medo, ao desânimo e a qualquer outro sentimento que nos demova da ideia de perguntar e repetir a pergunta que quase levou nossas mães à loucura: mas por quê?

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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