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A checagem ao vivo e o jornalismo como necessidade

nov 2020 | Democracia, Imprensa, Jornalismo, Política

Cinco emissoras de TV interromperam o pronunciamento do presidente Donald Trump ontem à noite para fazer a checagem ao vivo do festival de desinformação que compunha sua fala. Trump estava há dois dias sem aparecer em público e, quando o fez, foi para seguir à risca a cartilha da morte da democracia, ou desdemocratização, como autores vêm conceituando esse período horroroso que estamos ajudando a construir na história política, econômica e social internacional (da qual o Brasil faz parte como protagonista). Ontem à noite o jornalismo se posicionou (ainda mais) como necessidade nesse processo.

Ainda ontem, à tarde, estava assistindo à GloboNews quando veio a informação de que a campanha de Trump havia voltado aos e-mails para dar carga à desinformação e descrédito das instituições. Uma vez que as redes sociais estavam bloqueando os conteúdos falsos, o e-mail voltava à cena para, em textos em CAIXA ALTA, falar sobre fraude etc., na má e já conhecida retórica do medo e da insegurança como estratégia de poder e controle (textos de referência abaixo).

O pesquisador Adam Przeworski diz que democracia é um sistema no qual os titulares perdem eleições e saem quando perdem (artigo de referência listado abaixo para quem quiser saber mais). A partir dessa frase, a gente vê como o mundo ocidental anda mal das pernas nesse quesito.

Cabe lembrar que, na tradicional live de quinta, nosso “supremo” mandatário começou a tropicalizar a discussão com a volta aos votos de papel. Essa é a mesma pessoa que disse que houve fraude por aqui, e que ele teria sido eleito no primeiro turno. 

Responsabilidade

O que assusta nesse processo é a ausência de ação em relação ao festival de mentiras que permeia todo esse processo. Nos EUA, Trump será investigado após esse pronunciamento, que é uma festa de absurdos que podemos sintetizar dizendo que um presidente ataca as instituições do seu país e a democracia dizendo que o sistema (o mesmo que o elegeu) é fraudulento. Sem provas. Essas pessoas precisam ser responsabilizadas.

No entanto, quem assistiu ao Dilema das Redes deve se lembrar do trecho em que os entrevistados falam sobre o problema de ninguém acreditar mais em nada. Então, não é de se espantar por que estamos nessa situação, não é mesmo? Pedro Dória traz um bom tempero para essa discussão na sua coluna de hoje do Estadão. E eu quero dar minha humilde contribuição falando sobre o jornalismo como necessidade.

O jornalismo como necessidade surgiu para mim como parte das minhas pesquisas. A ideia é deslocar a discussão do que é, pode ser, ou para que serve o jornalismo, para posicionar os produtos da nossa prática profissional como itens essenciais na cesta de consumo de uma sociedade que visa caminhar no amadurecimento da democracia como regime.

Jornalismo como necessidade

Em resumo, quando a crise aperta, o jornalismo cresce.

Foi assim por aqui com o consórcio inédito como resposta à censura do ministério da Saúde sobre os números da pandemia, quando os veículos O Globo, G1, Extra, Folha de São Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo se organizaram.  Antes disso, o Instituto Datafolha divulgou que jornais (56%) e emissoras de televisão (61%) foram indicadas como as fontes de maior credibilidade em  levantamento feito com  1.558 pessoas entre os dias 18 e 20 de março.

O Google Integrated Artificial Team também atesta essa tendência no relatório Coronavírus: o mundo nunca mais será o mesmoEm 21 de março de 2020, período em que o documento posiciona a primeira onda da pandemia, as buscas por notícias superaram as buscas por entretenimento. Sem falar na atuação dos jornalistas em comunicação, ainda mais relevante a partir do momento em que cresce a demanda da sociedade por coerência e a reputação passa a valer mais do que a promoção.

Para quem acha que estamos em baixa ou somos uma espécie em extinção, sinto desapontar, mas o jornalismo está mais vivo do que nunca. E como sou cautelosamente otimista, ouso dizer que a sociedade que preza pelo que avançamos, também.

Para saber mais:

AHMED, S. Affective economies. Social Text 79, Duke University Press, Vol. 22, No. 2, p. 117-139, Summer 2004.

BECK, U. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: Editora 34, 2011.

BOBBIO, N. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2018.

EMPOLI, G. Os engenheiros do caos. São Paulo: Vestígio, 2020.

LEVITSKY, S.; ZIBLATT, D. Como as democracias morrem. São Paulo: Cia das Letras, 2018.

MERCIECA, J. R. Dangerous demagogues and weaponized communication. Rhetoric Society Quarterly, Vol. 49, No. 3, p. 264–279, 2019. Disponível em https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/02773945.2019.1610640?journalCode=rrsq20

PRZEWORSKI, A. Crises of democracy. Cambridge: Cambridge University Press, 2019.

RANCIÈRE, J. O ódio à democracia. São Paulo: Boitempo, 2014.

SANTOS, B. S. A difícil democracia: reinventar as esquerdas. São Paulo: Boitempo, 2016.

STERNBERG, R. J., STERNBERG, Karin. The nature of hate. Cap 6: “The role of propaganda in instigating hate”. p. 125-164. Cambridge University Press, 2008.

TILLY, C. Democracia. Petrópolis: Vozes, 2013.

WHILLOCK, R. K. The use of hate as a stratagem for achieving. political and social goals. In: WHILLOCK, Rita Kirk, SLAYDEN, David. Hate Speech. Sage, p. 28-54, 1995.

 

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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