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Reflexões sobre Felipe Neto no Roda Vida

maio 2020 | Comunicação, Jornalismo, Mídias, Tendência

Um dos mais poderosos influencers brasileiros esteve nesta segunda, 18 de maio, no Roda Viva, até então destinado a entrevistar personalidades do cenário político brasileiro. Penso numa boa definição para esse acontecimento recorrendo ao filósofo esloveno Slavoj Žižek (2017, p. 8), que define o acontecimento como algo que “parece acontecer subitamente e que interrompe o fluxo natural das coisas”. Felipe Neto no Roda Viva pode ser visto dessa forma.

Considerando como “subitamente” o quanto ainda estamos compreendendo a profundidade das transformações da tecnologia e das plataformas no consumo (de tudo) e no comportamento da sociedade, e “fluxo natural das coisas” como essa quebra de protocolo, alguns pontos me instigaram.

Vamos a eles:

1)   O convite por si só reforça o fato de que meio, mensagem, imprensa, formador de opinião etc etc etc estão de pernas pro ar se considerarmos as teorias que regem a comunicação contemporânea. Se alguém está em busca do que é o novo normal, taí algo que já ronda nossa vida há muito tempo e que, agora, grita nas nossas caras.

2)   Felipe Neto amadureceu muito e não parece aquele menino que meus filhos veem há anos jogando Minecraft. No entanto, continua o mesmo menino e assume isso quando diz que o que mais lhe dá prazer é jogar. Felipe tem 32 anos. E é um sem número de Felipes. Outro novo normal: somos fragmentados e nossas imagens a depender da bolha, idem.

3)   Inegável que ele é um comunicador poderosíssimo. Fala a língua do público aonde ele está. Não tem esse número estrondoso de seguidores à toa, minha gente. Ignorar isso e esculhambar sua potência preso a velhos conceitos de formação de opinião, qualidade VS quantidade etc é enxugar gelo. Ou negar a realidade.

4)   Felipe Neto no Roda Viva foi uma entrevista com vários trechos maravilhosos para aulas e media trainings. Felipe Neto passou muito bem pelo programa, soube pedir desculpas, reconhecer erros. Entretanto, existe um limiar entre o pedido sincero e um discurso do errei, me perdoem, mudei… à exaustão. Em alguns momentos me pareceu um pouco exagerado. E vocês, o que acham disso?

5)   É política VS Não é política. Todo aluno de comunicação aprende que comunicação é política. Para além da teoria e passando às discussões ideológicas e partidárias, falar em facismo e em golpe já é um forte posicionamento. Para quem tem mais de 30 anos, esse discurso não cola como está. Felipe Neto precisa aprofundar suas leituras para organizar melhor esse discurso.

6)   Ainda sobre política e o seu papel enquanto comunicador e influenciador, se o seu objetivo é lutar contra a intolerância e suas consequências, usar o vocabulário do inimigo, para me ater aos termos dos intolerantes, é encontrar a porta fechada e reforçar os seus argumentos. Sendo o canhão que é para distribuição de conteúdos, seria muito bacana vê-lo menos combativo e com um discurso mais propenso a chamar atenção de quem ainda é apoiador dessa gente horrorosa.

7)   Uma fala me chamou atenção, considerando que atuo também como professora: o fato de ele ter citado que o seu irmão, Lucas Neto, que tem um público majoritariamente infantil, se cercar de pedagogos para orientá-lo sobre o conteúdo. Não me lembro de ter visto nos relatórios e estudos sobre tendências de carreiras nenhuma profissão tida como tradicional ligada aos infuencers e suas empresas enquanto empregadores.

8)   Felipe Neto no Roda Viva mostrou que anda lendo bastante e isso fica claro na forma como articula seus comentários políticos. Mas me pareceu estar cometendo um erro de principiante: se apropriar de conceitos de determinados autores e aplicá-los à exaustão e de forma indiscriminada para validar sua visão de mundo. Assim como o ponto 5, vale atenção, para não parecer prepotência ou avanço de sinal entre o que é ser credenciado para falar e o que é a sua opinião pessoal — se bem que, como influencer, a opinião pessoal é mais valiosa do que o que ele é credenciado ou não para falar… De todo modo, se é para se estabelecer para além do público do Youtube, vale equilibrar.

9)   Deu recomendações sobre paywall para a imprensa tradicional, criticou o posicionamento editorial da CNN num contexto de reforço da credibilidade e da importância e o papel do jornalismo livre para a democracia. É a “nova mídia” implorando para a gente resolver isso daí. Em vez de ver a tchurma torcer o nariz, imagina que linda uma parceria de mídias jornalísticas e influencers, a exemplo de Skoll e Anitta, em busca de aumentar o alcance e a penetração das notícias para além dos iniciados?

10) Felipe Neto participa do agendamento da política. Parte do que compõe o novo normal.

E vocês, o que acharam? Pode contar aqui.

*Texto publicado originalmente no LinkedIn.

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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