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10 coisas que pude aprender com o mestrado

jun 2021 | Balburdia, Carreira, Educação, Networking, Pesquisa, Sem categoria, Universidade

Entrar num programa de pós-graduação stricto sensu, como são chamados os mestrados e doutorados, é uma decisão que custa caro. É muito mais difícil do que parece quando a gente olha de fora e vê aquelas pessoas exaustas, com olheiras, pressionadas e num estado de estresse difícil de gerenciar. A notícia boa é que a gente não só sobrevive, como se transforma para melhor. Neste post, te conto 10 coisas que pude aprender com o mestrado.

As imagens são todas do @mestradodadepressão, essa dádiva das redes sociais que é pura empatia!

olheiras, uma das coisas que deu para aprender no mestrado - a conviver, no caso

Antes da lista, no entanto, bora entender a diferença entre MBA, MBE, pós-graduação lato sensu, stricto sensu, mestrado, doutorado, acadêmico e profissional, para ficar claro que não existe melhor ou pior, e sim aquela alternativa que mais se ajusta ao seu plano de vida, carreira e conhecimento. Se você já sabe, só rolar o scroll e seguir para o próximo entretítulo.

 

Qual é o seu plano?

O quadro abaixo foi feito por mim quando trabalhava na comunicação institucional de uma mantenedora de instituições de ensino superior. Tá bem legalzinho, então, atualizei algumas coisas e reproduzo para vocês:

TIPO DE CURSO QUAL É O PLANO O QUE VOCÊ VAI VER QUANTO TEMPO VAI INVESTIR PONTOS IMPORTANTES PARA CONSIDERAR NA ESCOLHA
ESPECIALIZAÇÃO

Titulo: Especialista ou Pós Graduação Lato Sensu

Aprimorar os conhecimentos e se dedicar a uma área específica da profissão •Aspectos pontuais da área escolhida

•Atualização do campo de trabalho

•Vínculo com mercado

•Networking com profissionais que não necessariamente serão do seu campo de atuação

360 horas ou mais.

De 12 a 20 meses

•Corpo docente: é para stalkear mesmo todos os docentes do curso, porque nesse tipo de opção é fundamental que todos tenham experiência profissional robusta e em curso nas disciplinas lecionadas.

•Processo seletivo: caso a instituição não tenha um, saiba que você poderá se ver em turmas com pessoas muito distantes daquelas com as quais deseja estabelecer um networking.

•Reputação da instituição no mercado: pense que você está investindo tempo e dinheiro na sua qualificação, então, esse investimento tem que ser feito em uma instituição que seja reconhecida pelo mercado e por seus pares.

MBA (Master in Business Administration) ou MBE (minha especialização é MBE, Master in Business Economics)

Título: Especialista ou Pós Graduação Lato Sensu com MBA/E

Seguir carreira em gestão, negócios, alto desempenho •Aprofundamento em práticas de gestão

•Vivencias práticas e de mercado

•Alto desempenho

•Networking com pares de áreas correlatas em outros segmentos de atuação

Mais de 450 horas.

De 12 a 24 meses

•Corpo docente: assim como na pós lato, um MBA ou MBE tem que ter um corpo docente de excelência. Observe se as experiências dos professores casam com os seus desejos de desenvolvimento, pois, além das aulas, são contatos que ficam para a vida e devemos aproveitá-los ao máximo.

•Processo seletivo: MBAs que não selecionam candidatos por nenhum parâmetro tendem a ter abordagens mais genéricas nas disciplinas. Isto pode frustrar quem já possui uma boa experiência profissional.

•Reputação da instituição no mercado: uma dica é pesquisar dentre as pessoas que você admira, ou no seu setor de atuação, quais as instituições mais comuns nos currículos desses executives.

MESTRADO

(Pode ser mestrado acadêmico ou profissional)

Título: Mestre

Acadêmico: carreira acadêmica ou em pesquisas de natureza específica. Articulação com a teoria e o conhecimento construído na área.

Profissional: pesquisa aplicada ao desenvolvimento de produtos para problemas específicos do mercado.

•Vivência em pesquisa e conhecimentos de ponta da área

•Conhecimentos avançados em áreas do saber

•Ampliação estrutural na capacidade crítica e argumentativa

•Networking acadêmico e profissional (devido ao sucateamento dos programas de apoio à pesquisa, praticamente todas as pessoas que cursam mestrado também atuam profissionalmente)

24 meses (dois anos) •Aderência do seu projeto às pesquisas do futuro/a/e orientador/a/e. Se não tiver nenhuma, dificilmente você conseguirá ser aprovado, pois os programas, sejam eles acadêmicos ou profissionais, têm suas preferências.

•Bibliografia de referência: todo programa tem seu rol de autores preferidos, bem como alguns ranços. Leia os artigos dos pesquisadores do programa, veja os grupos de pesquisa vinculados a ele, conheça os conceitos. Óbvio que você pode chegar com novas propostas, mas quanto mais elas dialogarem com o que é familiar, maior é a propensão de fazer sentido para a produção intelectual daquele espaço.

•Nota do programa: não vai se meter em programa mal avaliado pela Capes, ok? É roubada.

•Atividade dos grupos de pesquisa: mestrando não vale nada para as publicações de referência, então, é muito importante conseguir se vincular a um grupo de pesquisa para poder produzir, publicar e engordar seu currículo Lattes.

•Clima: tem gente que acha que isso é besteira, mas eu não acho. O compromisso com os pesquisadores e entre eles é fundamental. Stricto sensu é punk. É uma pressão enorme. Sem o apoio dos colegas, fica muito mais difícil.

DOUTORADO

Titulo: Doutor

Criação de novos conhecimentos, pesquisadores efetivos, pessoas que buscam carreira docente ou direcionadas aos avanços em suas áreas. •Expansão das fronteiras do conhecimento

•Criação de novos paradigmas

•Pesquisa avançada

•Título máximo em termos acadêmicos

48 meses (quatro anos •Além de todos os conselhos acima, tenha claro que é esperado que você expanda o conhecimento no campo proposto. Ok que tem um monte de tese que não faz isso, mas não será o seu caso, certo?

 

O que pude aprender com o Mestrado

O título é reducionista toda vida, claro. Fazer pesquisa é inquietude, incômodo, crítica, curiosidade… Ou seja, é aprendizado que não acaba mais. Só que nem de teoria e ciência se preenche uma vida, então, consolidei o que eu considerei mais importante nessa jornada.

 

1. Tenha claro o que você quer para a sua carreira.

Em 2009, eu cursei um MBE em Economia e Gestão da Sustentabilidade, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), porque precisava compreender mais profundamente muitas coisas dessa área para o meu trabalho na época. Eu geria uma agência de comunicação com cerca de 40 jornalistas e 75 clientes, além de estar envolvida diretamente projetos que demandavam gestão de stakeholders em uma época em que quase nenhuma empresa falava disso.

Ter feito um MBE me trouxe muitos conhecimentos de gestão que eu ainda não havia aprendido na prática. Sustentabilidade, então, foi demais! Naquele momento comecei a compreender o potencial ainda pouco explorado para a comunicação na articulação com outros campos de estudo e conhecimento e o ganho para valor e reputação para as marcas.

Foi uma escolha muito acertada, e que permitiu, inclusive, a transição de carreira que fiz logo depois, para gestão de comunicação de marca. Meu objetivo foi ir para dentro das empresas, fazer mais do que tinha condições de executar do lugar de agência. Neste ponto, foi fundamental o contato com diferentes profissionais que conheci no curso, e que viraram amigos e amigas para a vida.

Conhecer diferentes realidades de mercados, de gestão, desafios, oportunidades, discutir tendências e ampliar propostas na pesquisa final — a minha foi sobre se a sustentabilidade poderia ser um valor na decisão de compra da Classe C. Ô, saudade dessa época de país e de problemas! — foram pontos cruciais no meu desenvolvimento profissional. Mais tarde, potencializaram a capacidade de aprender com o mestrado.

 

2. Não abandone a literatura sobre teoria

Eu só concorri à UERJ, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pré-pandemia, e foram muitas etapas. Como era o único programa no qual estava inscrita, era passar ou passar! Ao fim, nós, que íamos sobrevivendo às etapas, já brincávamos dizendo que não aguentávamos mais ver as caras uns dos outros.

A primeira fase foi análise de documentos. Depois, tive que estudar muito e articular a bibliografia da prova. Isto porque, no dia, a seleção foi uma única questão “disserte sobre”. Então, ai de você se não leu, ou não tem ideia do que um autor tem a ver com o outro e como seus conceitos dialogam.

Parece óbvio para quem é do meio acadêmico, mas para nós, que temos toda uma carreira afastada do campo teórico, é difícil sim. E dá trabalho. Então, a dica é nunca se esquecer dos teóricos do seu campo, leia e mantenha esses conhecimentos atualizados.

Sabemos que é complicadíssimo encaixar tempo nas nossas rotinas 24/7, mas quanto mais a gente se afasta da teoria, mais difícil é retomá-la. Por outro lado, quanto mais a gente se apropria dela, maior é a força dos argumentos e da construção dos  raciocínios. Isso eu só aprendi com o mestrado.

Para não deixar de citar as demais etapas do processo seletivo, houve análise de Lattes, projeto, prova de idioma e só depois de longos quatro meses, o resultado. Sobre Lattes, é importante dizer que a gente não precisa ser acadêmico para entrar em um mestrado acadêmico. Existe um campo chamado de produção técnica, no qual tudo o que fazemos conta (inclusive dá um up nos currículos acadêmicos).

Uma das coisas que a gente consegue aprender com o mestrado

3. Cuidado com as expectativas

Meu primeiro ano foi muito mais difícil porque eu tinha expectativas altíssimas para depois que entrasse. Então, lidar com a frustração e com o excesso de auto cobrança foi algo que eu tive que aprender com o mestrado. Sem falar que junto com tudo isso veio um momento delicadíssimo na família… era aprender ou sucumbir.

Eu não sei vocês, mas eu sempre fico buscando fazer as coisas dentro do que é o suprassumo da boa prática. Só que quase nunca isso é possível, então, a regra “o ótimo é inimigo do bom” se aplicou totalmente. Quando consegui aceitá-la, confesso que ficou menos difícil.

4. Esteja aberto às pessoas

Quando, enfim, fui aceita, meus colegas docentes mais cascudos me relataram o quanto o mestrado foi um período solitário. Por isso, confesso que fiquei ressabiada. Mas eu não resisto ao primeiro sorriso, assim que tenho muito orgulho em dizer que mais do que aprender com o mestrado, eu fiz amigos.

É muito importante ter pessoas ao lado, pois a pressão existe e é real. Não é à toa que existem tantas pesquisas sobre saúde mental de alunos no stricto sensu… No lugar de solidão, encontrei empatia e abertura. Entre meus colegas de turma, outros desesperados como eu que, em vez de competir, se uniram em chopes (saudades demais do tempo em que isso era possível), lamentos e força mútua. Também, nos doutorandos, que sempre apoiaram seja com bibliografias, conselhos, parcerias.

Alguns professores também fizeram muito a diferença e eu os amo demais por isso.

5. Metodologia salva

Por que a gente não aprende metodologia desde o ensino fundamental? Compreendê-la fez de mim uma pessoa melhor na vida, no trabalho como consultora, como mentora, como docente, como pesquisadora.

Nossa vida ao aprender com o mestrado

Não esperem para aprender com o mestrado. Só aprendam e se dediquem a inseri-la na forma de pensar e resolver problemas. É transformador.

6. Tenha fé nos seus instintos e escolhas

Em muitos momentos da minha pesquisa, fui provocada em relação às minhas escolhas. Nesse sentido, é importante manter um quê de teimosia, não aquela relacionada a bater pé porque-eu-quero-e-ponto, mas a de entender que, se faz sentido para você, é seu direito como pesquisador seguir em frente.

Claro que essa postura vai cobrar a conta. Então, fundamente o raciocínio, estude, confronte os seus argumentos com seus pares. Submeta seu trabalho no estágio que estiver a congressos e seminários e ouça as contribuições. Busque aprender com o mestrado o tempo todo, valendo-se de pesquisadores mais experientes para ler sua produção. Todos esses passos vão ajudar a selecionar os instintos e apurar escolhas.

Aprender com o mestrado? Prazer, raiva controlada

7. Coragem é ir com medo

Tinha muita coisa a perder ao me por à prova em uma área distante daquela na qual atuo por mais de duas décadas. O tempo todo, esse medo me acompanhou. E se eu não conseguir produzir algo condizente com a minha reputação? E se eu não conseguir ser coerente com o que acredito e com forma como atuo? E se eu não conseguir evidenciar o que aprendi com o mestrado?

Aos poucos, a coragem foi tomando as rédeas e isso aconteceu em paralelo aos outros aprendizados. Ontem, confesso que tremi quando vi ex-alunos, clientes, colegas de trabalho na minha banca. E se eu não fosse capaz de atender às expectativas de cada uma daquelas pessoas?

Acontece que desenvolvimento profissional é mais do que saber aprender, e saber saber, mas sim também ser capaz de usar o aprendizado. A pesquisa agregou um monte de novas características àquela Ceci de 2 anos atrás, bem como reforçou outras. Assim que eu pude aprender com o mestrado a alimentar a auto confiança a partir da confiança de todos em mim.

E vamos com medo mesmo. O nome disso é coragem.

8. Pragmatismo é bom, mas paixão dá energia

Apaixone-se pelos seus objetos, quaisquer forem. Escolha algo de que você realmente goste e que seja significativo para a sua vida. No meu caso, o papel político na atuação profissional de jornalistas nos processos de produção da reportagem, assessoria de imprensa, produção de conteúdo e social media fazem parte da minha vida. É isso que eu amo. É com isso que eu trabalho.

Pragmatismo é uma dádiva, mas o frio na barriga e o brilho nos olhos da paixão fazem toda a diferença. Não vou dizer que foi isto foi possível aprender com o mestrado, mas que esse período reforçou a necessidade da paixão, pelo menos para mim.

Consegui aprender com o mestrado a funcionar com a luz apagada!

9. Tenha um revisor de confiança

Uma sorte: tenho minha mãe como revisora, o que além de me dar uma liberdade de prazos bizarra, ainda me economiza uma boa grana! Se este não é o seu caso, saiba que um texto revisado tem o seu valor.

Isto porque, com o tempo, deixamos de enxergar vícios de linguagem (muitas vezes a gente nem tem consciência de que os têm), incoerências na construção do texto, falta de clareza e uma série de coisas que a proximidade nos cega.

10. Divirta-se e festeje o quanto você é foda

Ok, além de beirar a loucura, é possível aprender com o mestrado, mas a gente fica doido para terminar logo.

No fim, o que é aprender com o mestrado

Só que passa tão rápido que, quando acaba, duas coisas vêm à cabeça: como eu dei conta?, e ai, que pena, acabou!

Pós-defesa, estou revivendo cada segundo da minha banca, cada palavra generosa dos meus avaliadores. Estou me permitindo “me achar” um pouco. Logo eu, a maior megera comigo mesma, mas que venho buscando me tratar melhor a cada dia.

Afinal, ser aprovada sem nenhum apontamento, só elogios, na universidade pública mais democrática do Rio de Janeiro e, quiçá, do Brasil, em 2021, na pandemia, no Brasil da morte, do desmonte, do desmando, é, sobretudo, usar o lugar de privilégio para reforçar a resistência, mãos dadas e fé na vida!

Mesmo todo o perrengue que a gente consegue aprender com o mestrado não é suficiente para fazer desistir. Vá entender!

Prazer, Ceci!

 

 

Por Cecília Seabra

Por Cecília Seabra

Jornalista, consultora, mentora, pesquisadora, docente e apaixonada pela Comunicação. Mãe de gente e mãe de bicho. Atuo há 21 anos na área, com experiência que é resultado de passagem por todos os cargos e funções em agência, gerenciamento de crises, além de coordenação e gestão de comunicação e sustentabilidade em marcas líderes nos seus segmentos.

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